quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia dos pais

- Alô pai?
- então Caco, bons ouvidos te oiçam. A última vez que me ligaste foi...
- Eu sei, eu sei foi... mas penso em ti todos os dias.
- Hummm
- A sério pai. Consulta aí os anjos a ver se não é verdade. É, pois.
- Eu sei.
- pai, ando para te perguntar isto faz tempo.
- Diz lá.
- Como é isso por aí?
- Tu sabes que não posso revelar essas coisas.
- Épai, mas revela lá algumas coisinhas. Tem bolsa de valores e banqueiros e jogos de futebol; como se deslocam de um lado para o outro, voam, tem coches celestiais, tem moças bonitas, como é?
- Tem tudo isso. Movemo-nos por indução mental.
- Uau, e tens amigos ou andas sempre por aí sozinho a vaguear com o jornal debaixo do braço?
- Amigos e familia. Muitos. São almas com quem tivemos contacto quando andei por aí. Jornais também temos; e eu até tenho uma coluna no Celestial Post.
- A sério?
- Sim, a sério.
- De que falas nesses artigos?
- Discuto.
- Discutes o quê?
- Não discuto o quê. Discuto apenas. Há hábitos que não se perdem assim de repente.
- Pois. Bons bravos hábitos. Mas discutes com almas, como direi, de pessoal já falecido ou metes-te à discussão com hierarquias superiores?
- Como sabes?
- Não sei, estou a perguntar?
- Tive um diferendo com o Arcanjo Gabriel.
- Oh!
- Pois, eu sei, não devia. Ele priva com Deus e fui chamado à Sua presença por causa disso?
- E então, esclareceste que essa estória é apenas uma hábito terrestre e...
- Bem, ahhh, quer dizer, acabei a discutir com Deus.
- Uichhh, condenou-te?
-  Quase. Por milagre safei-me.
- Milagre de quem?
- Do teu filho primogénito, meu neto.
- Como assim, o Ricardinho que...?
- Sim, o rapaz ascendeu a altas esferas celestiais.
- Não!?
- É, tem funções de anjo advogado de defesa dos arcanjos.
- Ah meteste-lhe uma cunha então?
- Não é preciso. Eu vivo com ele desde sempre. Ensinei-lhe tudo o que sei sobre leis e códigos e ele tirou o curso com elevada classificação. Até o Diabo o sondou a ver se o recrutava para dirimir argumentos de posse do Paraíso.
- E ele, não aceitou?
- Não. Ele é o terror da litigação contra demónios.Nada o demove desse desiderato.
- E como é que o tentaram aliciar?
- Pela negativa. Esse foi o erro dos demónios.
- Como assim?
- Disseram-lhe que teria companhia da irmã se não aceitasse a oferta. Um logro.
- Filhos da...
- Pois. Mas ele não cedeu à chantagem.
- Isso. Mas essa postura significou infelizmente que a irmã lhe fez companhia,
- Sim, é um facto, sabes bem. Também cuido dela desde sempre, ara que saibas. Mas o teu filho tinha um plano maior para fazer o que fez.
- Sim, qual é esse plano?
- Assegurar-te mais dois.
- Fónix. Estou baralhado.
- Eu explico: O logro é que ela já viria na mesma por designios do Altissimo e o teu filho percebeu-lhes a artimanha.
- E fez com eles um acordo, com aval de Deus.
- Que acordo foi esse?
- Assegurar-te dois sublimes e maravilhosos filhos. As partes que podiam obstar ao seu nascimento foram enredadas no acordo que ele fez.
- Nem o Diabo, nem o Altissimo intervieram para prejudicar que pudessem ter éxito. O Mário e a Margarida.
- Estás  a brincar comigo, isso foi mesmo assim?
- Claro que foi. Até te digo mais, O Altissimo, que tudo pode, à socapa botou neles uma centelha especial. Serão dois anjos.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Highway to HELL







No dia do meu aniversário acordei ligeiramente mais tarde. Tinha estado a ler excertos da ‘Divina Comédia’, na internet, noite adentro.

Nesse domingo de manhã, Cavaco Silva discursava a propósito das comemorações da implantação da república. Readormeci. Um comprimido de política genérica é excelente para quem sofre de insónias. Que tome boa nota o senhor ministro da saúde para poupanças na factura medicamentosa.

Adormeci durante cerca de uma hora e picos.
Nesse espaço de tempo sonhei tão densamente quanto os textos que tinha acabado de ler.

Naquele, tinha sido resgatado da velhice. Olaré. Não há forma de deixar de ser o actor principal quando cerro as pálpebras. Deve ser uma compensação, sei lá.

Mas é nessa condição messiânica e heroica que a minha alma se revê quando descansa. Eu sei lá porquê. Não sei. Pois, então, se não fosse uma injeção de delírio caprichoso que os neurónios debitam quando repousam, que piada teria sonhar?

Eu gosto de filmes épicos. E de novelas também.  Mesmo as brejeiras., embora nunca saiba bem se realmente as vi. Nunca sei, mas também não faz mal. Serve de paliativo indutor para o santo descanço.
Pois bem, lembro-me apenas do senhor presidente da república a dizer umas coisas e…

...
...

… e proferiu, então, a decisão de me enviar  às profundezas. Profundezas e quenturas.
Não consegui obter resposta à pergunta que Lhe fiz. Ele estava decidido e determinado. Eu diria mesmo: obstinado.
 Virou-me costas, por assim dizer, e segredou com alguém. Pareceu-me o Diogo Morgado, mas não tenho a certeza.

-Olhe, se faz favor, senhor homem-pássaro, pode voltar a chama-Lo, queria dizer-Lhe mais uma coisinha. Pode ser?
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- Que língua é essa? Não percebo o que diz.
- Não sou um homem-pássaro.

- Parecia-me o Vultan, amigo do Flash Gordon, por causa das asas.
- Sou um anjo. Tenho de levar-te para o inferno.

- Não acha melhor ministrar-me um estágio para formação operacional. Nunca lá estive e não sei bem como proceder. E depois funcionaria como espécie de meio transitório de adaptação do corpo ao clima. Ouvi falar que isso era coisa importante quando perdemos com os boches no mundial de futebol no Brasil.
- Não tens corpo. És agora uma entidade imaterial.

- Mesmo assim, ainda sinto arrepios, e até uma ligeira coceira nas partes baixas. Não estou devidamente preparado, não lhe parece? Podia ser nas Bahamas – imagine - dizem que é  quente e tem vulcões. Um local perfeito para estágio.
- O estágio já te foi dado. A juventude e a meia-idade. Retiramos-te da velhice para te alojar no inferno. Da velhice, precisamente, porque os pecados cometidos na velhice são mais graves e dificilmente perdoáveis, pelo que não poderias fazer o que vais fazer nesta viagem se não te resgatássemos da velhice.

- Qual viagem?
- Highway to hell.
- A tournée dos AC/DC?

- Não. Todos os seres humanos vão para o inferno. Até o Filho por lá passou, para exemplo e expiação, sem ter cometido, porém, pecado. Mas não foi lá esquecido. Foi resgatado ao terceiro dia. Tu visto-O há pouco.

- Nossa, não era o Diogo Morgado! Era mesmo Ele? Pressinto que vou desmaiar, vejo as coisas a girar…
- Óptimo.  Está na hora de te inculcar informação, rapaz.
- Inculcar, tipo uma ligação ao sistema Matrix onde aprendo golpes de karaté e a pilotar helicópteros e instruções para deter balas infernais, suster-me no ar com ares de Keanu Reeves e… ?

- Sim, mais ao menos isso. É o estágio, digamos. Acompanhar-te-ei durante algum tempo até chegarmos ao primeiro circulo do inferno e… Ah desmaiou, finalmente.
...
...
- É aqui o inferno?
- Aqui é o local por onde Lucifer embateu quando foi forçado à queda, perfurando um abismo imenso até ao centro da Terra. É o local de entrada. O Portal do Inferno.
- Olha, pois é, lá está o arco com o aviso que diz «Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança...». Que medo.

- O inferno é constituído por Nove Círculos, e dentro destes há Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final. O primeiro é já ali à frente, o Limbo, onde estão as almas de Sócrates, Aristóteles… e estiveram as almas de Adão, Noé, Moisés, Abraão, Isaaq… é um local de passagem obrigatória onde permanecem unicamente os virtuosos pagãos. Os outros vão para círculos inferiores, digamos, mais densos.


- Fico-me pelo primeiro, então, certo?
- Tens de passar em todos os círculos e...

- Não percebo. Então, se fiz asneira, diga-me a que círculo corresponde a intensidade dos meus pecados.
- Fizeste muita asneira, graças a Deus, mas não é por elas que vais ao inferno. Foste escolhido para uma missão Divinal, no inferno todo.
- Eu?

- Lucifer, ao contrário do que se pensa, tem uma vontade firme e ilimitada em viver no Paraíso. Ele adora e anseia pelo paraíso.

- A sério?
- Sim, ele quis o Paraíso que Deus construiu. Mas também não gostou nada da ideia de se submeter a um Homem feito Verbo. Usou várias formas ardilosas para comandar o paraíso. Os círculos representam a intensidade de todas essas formas rasteiras que ele usou para se substituir a Deus e perpetuar os comandos do Paraíso. Mas Deus antecipou-se e castigou-o, lançando-o violentamente para o abismo, fazendo-o sofrer as agruras das acções cometidas em todos os círculos do inferno.


- Ok, parece justo. Mas e eu, porque é que devo seguir os mesmos castigos de Lucifer?
- Do Abismo, Lucifer pretende agora usar os métodos que Deus usou para a efectuar a Criação no sentido de retornar ao paraíso e conquista-lo finalmente.

- Como assim?
- Deus fez-se Carne, há uns tempos, para entrar no Inferno. Naquele local só pode entrar quem encarnou. Sofreu na Carne as agruras da vida e, na cruz, a consumação do objectivo, com o fim de ir parar ao inferno de onde resgatou algumas das almas virtuosas, abrindo a porta para que os seres humanos de boa índole pudessem elevar-se aos Céus.

- Fogo.
- Jesus representa a libertação do jugo onde Lucifer fez perorar todas as almas desde que caiu. Foi a Chave para abrir a fechadura ardilosamente feita por Lucifer, pelo que, a partir dessa altura, a passagem dos infernos para os céus processa-se por méritos, automaticamente após estágio no primeiro círculo. Antes de Jesus não havia acesso ao paraíso, portanto., porque Lucifer tinha bloqueado o sistema de ascensão.

- Porra! Jesus morreu mesmo por nós. Eu pensava que eram babelas.
- Pois.

- Mas então que missão divinal me foi atribuída? Jesus não resolveu já a coisa vencendo Lucifer por KO técnico e na sua própria casa?
- Sim. O problema é que Lucifer está a usar métodos mais apurados, a replicar os do Altissimo, que colocam Deus numa situação melindrosa do tipo: para fazer bem à humanidade tinha que fazer mal.

- Ai sim?
- Sim, Lucifer está a usar a humanidade para aceder ao Paraíso. Ele não age por sua própria conta nem usa os seus próprios braços. Usa a humanidade para fazer o serviço.

- Mas não foi dessa forma, embora de sentido oposto, que Deus agiu quando encarnou em Jesus? Quer dizer, Deus também usou de ardil para entrar nos infernos através da morte de Jesus e reformular o modo com algumas almas podiam ser salvas e rumar ao Paraíso.

- Sim, foi. E esse é que é problema. Deus considera a humanidade e usou-a para beneficio dela mesma enviando o Filho. Ao passo que Lucifer a quer usar para perversão do sistema de ascensão aos Céus e enfileirar-se no sistema para aceder ao paraíso e conquista-lo.

- Epá. Mas então, como é que esse camafeu do Lucifer está a fazer esse uso da humanidade?

- Dir-to-ei mais à frente. No segundo círculo do inferno há um juiz à entrada para julgar o nível do círculo que o teu passado comportamental pressupõe. A esse juiz está vedada a hipótese prática de conscientemente aldrabar a pena, sob pena de colocar nas profundezas desse Inferno um anjo dos bons enviado por Deus. De forma que esse juiz tem de ser imparcial.
- Hummm, pois, Deus podia enviar um agente duplo.

- A ideia é conseguires passar o segundo círculo, onde és julgado, que é onde começa verdadeiramente o inferno, e seres condenado ao último circulo, o nono que, ao contrário do que pensas é o nível de gelo e não de fogo.

- Fogo, é de gelo?

- Dentro deste circulo estão imersos os traidores, representados por Lúcifer, o traidor de Deus, que aqui reside. Os traidores distribuem-se em quatro esferas diferentes dentro do nono circulo, dependendo da gravidade da traição cometida. As esferas chamam-se: Caína, Antenora, Ptolomeia e Judeca. Lucifer está na esfera Judeca. Nesta esfera reside Lúcifer, preso no gelo até o meio do peito, peludo, com enormes asas que possuem membranas como a dos morcegos no lugar de penas que provoca um vento sentido por toda a esfera. Ele tem três cabeças e com cada uma delas, morde um dos três maiores traidores da história: Judas, Brutus e Cassius. O numero de cabeças está a crescer e estão em fila de espera vários outros grandes traidores. O nome da esfera vem de Judas, o traidor de Jesus.

- Valha-me Deus. Eu vou para aí?
- Vais.

- E o juiz imparcial? Ele vai detectar que eu nunca fui um Judas ou um Cassius.
- Por isso te inculquei informação. Os sensores do juiz imparcial monitorizarão em ti condutas abjectas no teu passado e condenar-te-à ao nível de um Judas, colocando-te sob o jugo directo de Lucifer.

- Ah, a inculcação era para ele detectar um tipo de alma em mim que na realidade não fui. Uma espécie de avatar.
- Sim.

- E porquê eu e não outro melro qualquer?
- Não te posso revelar-te o motivo. Saberás no seu devido tempo.

- Detesto mistérios que envolvem a minha alma. Mas olhe, não sei se me aguento nessa empresa. Talvez me vá abaixo oh… como é que te chamas?

- Alighieri.
- Alighieri? o Alighieri que viajou em companhia do poeta Virgilio por todo o inferno, purgatório e subiu o monte rumo ao paraíso?

- Esse mesmo.
- Uau. Dantesco.
...
...
Cavaco Silva já tinha acabado o discurso quando o Ivan me telefonou ‘como é que é, vamos comer uma francesinha ali ao Lookal?’

Pois, vamos. Respondi-lhe.

O sonho perdeu-se naquele momento, mas recomeçou nessa mesma noite. No exacto ponto onde o deixei. É incrível, eu sei. Creio que os meus neurónios adaptaram-se lindamente às novas tecnologias. Pause’s e save’s e load’s passaram das tecnologias de silício para as de nervos e carnes, naturalmente.

Novamente, à noite, a reviver o discurso quase integral de Cavaco Silva que os telejornais insistem em apresentar e de bónus, para misericórdia, juntaram o discurso de António Costa,. Senti imediatamente as pálpebras pesadas. Ainda consegui ouvir que quer repor o feriado…

...

- Perguntavas-me de que forma está Lucifer a usar a humanidade para conquistar o Céu.
- Certo.
- Pois, Lucifer usa a humanidade de distintas formas e maneiras.



(há-de continuar)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Numa sinfonia os violinos nunca tocam ao mesmo tempo que as flautas…

 

Bom, desta vez regressei a Luanda pela única companhia aérea que faz voo directo apartir do Porto – A TAAG – sem ter que fazer escala em Lisboa, a viagem é muitíssimo mais rápida e, não menos importante, é mais barata. Tendo experimentado a nossa e a da concorrência, devo dizer que, talvez fosse boa ideia, a TAP promover um curso de reciclagem para o pessoal de bordo, formando-o de outra forma, mais aberta e menos informal, principalmente na abordagem directa ao cliente.

Quer dizer, desde a fila primeira até à minha oiço uma assistente monocórdica sofridamente a repetir palavras – café, chã, café, chã, carne, peixe, peixe, carne, café, chã – arre! podiam dizer um vez pelo sistema de som olhe agora vamos servir café e chã. Mas não, massacram-me as leituras com aquele tom sibilino e, mais grave, não consigo deixar de as ouvir. Mesmo lá ao fundo oiço-as. E quando parece acabar, volta sempre uma a dizer – mais café?, mais chã?. Para mim, aquela monocordía, assemelha-se aqueles castigos escolares de antigamente em que nos obrigavam a repetir ou escrever a mesma coisa quinhentas e cinquenta vezes… ou a ouvir os colegas a fazê-lo.

Calha-me nas sortes, invariavelmente, ficar ao lado das goelas das crianças. Concentradíssimo nas leituras que as sete horas proporcionam, acompanhado de todas as revistas e jornais disponíveis, os guinchos da pequenada começam logo antes da descolagem. O mais fantástico é que o guincho de um, alimenta uma infindável cadeia de berros dos outros; é frequente, pois, ler os meus livros ao som de uma orquestra, quase sinfónica, de notas vocais estridentes. Olho pelo canto, a ver se as pálpebras do miúdo que está ao lado começam a fechar, olho para trás para assegurar que a assistente de bordo já acabou o discurso da cafeína e, por conseguinte, passo à página seguinte do livro.

As mães vieram em força nesta viagem, sozinhas, com as crianças, não sei bem porquê. Os maridos terão regressado primeiro, talvez. Uma delas, mesmo ao meu lado, tinha uma expressão que reconheci imediatamente. Aquelas expressões de supremo cansaço de quem não consegue calar o rebento durante horas a fio e não sabe mais o que lhes fazer. Coitados. Exaustas. Fico stressado por contágio. Vejo-a cortar os pedaços de carne de frango para a menina e a cantarolar uma música e o biberão e a chupeta e todo aquele armazém ambulante comprimido num saco, de onde saem fraldas, lenços, panos, latas, leites, pratos, colheres, brinquedos… e um coelho de peluche. Houdini não faria melhor.

Não comeu. Bebericou um bocado de coca-cola, a mãe. A menina sentada. A mãe no chão, à frente, de frente, encostada à saída de emergência com ar desgastado.

Mãe sofre, disse-lhe. Ai, nem imagina, respondeu-me.

Do outro lado estava um rapazito, chorãozito também. Peguei no coelho de peluche e fiz um teatro ridículo.

Enfim, talvez suspendessem a (des)sinfonia que os assolava por aquela altura. Os compassos estavam desalinhados. Um berrava ao mesmo tempo que o outro estrebuchava aos grunhos. Ouvidos tapados pelas alturas, talvez. Numa sinfonia os violinos nunca tocam ao mesmo tempo que as flautas.

Coloquei o coelhinho escondido só com a cabeça de fora e falei para eles com o tipo de voz mais ridículo que consigo fazer. Nem me esforço muito para isso. Riram-se. Pararam de chorar. Não sei se admirados ou se incrédulos por tamanha ridicularia. Mas queriam mais, sempre mais teatro; nem que fosse para repetir as mesmas ridicularias durante sete horas seguidas, eles queriam mais. Cambada!. Cheguei a pensar, confesso, que preferia a monotonia da ladainha monocórdica das assistentes de bordo – café, chá, café, chã, carne, peixe. Nunca as duas ao mesmo tempo.

Um rebuçado. Descasquei um rebuçado. Eles viram. Todos viram. Todos. E os que não viram, ouviram. Os miúdos conhecem bem determinados sons. Com os cães é a mesma coisa, basta bater com a colher na panela.

A miúda do lado, o imediatamente ao lado dela, a miúda loirinha pequenina para a idade que estava mesmo atrás de mim e um rapazito preto que estava à frente. Um pretinho, filho de um português loiro, gordo e de uma preta magra novita com olhos arrebitados. Uma semana bastou para que ficasse preso a angola, confessou ele. Agora já não saio, nem quero.

A miúda de trás e o da frente puseram-se de pé, em cima dos assentos, um a olhar para a frente e o outro para trás, na minha direção. A do lado e o do imediatamente ao lado dela olhavam para as minhas mãos.

E eu, desembrulhava uns rebuçados calmamente. Metia-os na boca todos ao mesmo tempo e mastiguei-os com infinita vontade, um a um. Com a boca ostensivamente cheia, quase a salivar. Invejai criaturas dessinfónicas. Olhei pelo canto do olho. Abutres, todos eles. Posso dar-lhes?, perguntei às mães. 

Que remédio, naquelas alturas as mães concordam com tudo.

Diz obrigada, diz obrigada ao senhor. Não é preciso minha senhora. A mãe que estava ao lado era engenheira de computadores; assim que nasceu a menina, deixou de trabalhar. O marido, engenheiro também, já estava em Luanda. Em Luanda, em talatona, num condomínio. Ela despediu-se do emprego para tratar da menina. Mas não fiquei parada, disse, tome um cartão meu, olhe faço bolos para as escolas, quando eles fazem anos, sabe? e coloco balizas e campos de futebol e figuras de cantores conhecido; tinha que me desenrascar; fiz uns cartões com fotografias e distribui pelas escolas e as mães tem vindo a pedir muitos bolos, de forma que já nem tenho tempo disponível. E olhe, eu era a directora de uma grande empresa, mas teve de ser. Pagar um infantário, em Luanda, custa mais do que os olhos da cara.

Os miúdos já não precisavam de chorar. Tinham disponível a minha a teta, cheia de rebuçados. Volta e meia vinham ter comigo. Aquela espectativa de obter mais um fechava-lhes as goelas...

… e o coelhinho voltou para o saco.

 

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domingo, 27 de novembro de 2011

O mistério do prego caído… padre zé.

 

«Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...»

Fernando Pessoa

 

Braveheart (Bh) – Então Ricardo que fazes aí tão concentrado?

Ricardo (Rb) - Ahh, Braveheart, estou a ler uma cena interessante nos escritos de Fernando Pessoa.

Bh – O quê?

Rb – Um texto acerca da liberdade… ora vê.

Bh – Epá, Ricardo, isso é interessante, mas Fernando Pessoa não intuiu bem a coisa…

Rb -  Qual coisa?

Bh -  A coisa acerca de Jesus Cristo não perceber nada de finanças.

Rb – Achas que percebia?

Bh – Acho. A sério, fez-se-me luz agora que li esse texto, Cristo afinal de contas percebia muito de finanças pá. Vê bem, Cristo deu o exemplo, para memória futura, nas bodas de Canaã... inflacionou o vinho e o pão quando estes acabaram...

Rb – ehehe ganda maluco Braveheart. Que ideia!

Bh – Claro meu, vê bem, ele não disse aos convidados para beberem menos ou comerem menos, nem para comerem apenas uns e beberem outros; quer dizer, se o dissesse não havia bodas mas sim um açambarcamento por parte de alguns e mal estar geral por parte de quase todos…

Rb – Não inventes Braveheart. Só faltava agora os padres começarem a associar ideias económicas dessas nas homilias…

Bh – Homilias, olha que boa ideia. Que boa parábola! vou telefonar já ao nosso irmão padre zé pró gajo falar sobre estas coisas na homilia de natal…

Bh: Alô zé, já conheces aquela?… que Cristo sabia de finanças quando inflacionou o vinho nas bodas?
Padre zé: O quê? Tens que vir cá no natal Braveheart, urgentemente, estás a precisar de pôr a cabeça em ordem.

Bh: Caraças pá, estou a falar a sério. Como é que Cristo resolveu a falta de vinho no casamento de Canaã? ahh? e a cena da falta de pão no monte das oliveiras? ahh?

: Fez o milagre da multiplicação do vinho. Mas não acrescentou água ao vinho pá; era isso que estavas a pensar, creio [não espero outra coisa de ti].

Bh: Não porra. Sabes que acredito em quase tudo Nele... mas ele sabia de finanças. A sério zé. Qual água no vinho qual quê!?... quer dizer, não sei, na volta botou água no vinho, mas, enfim, não é isso pá; o ponto é que Ele inflacionou o vinho, percebes?


: Tás maluco!? Ele gerou vinho. Acrescentou ao que não existia. Não esticou o vinho [nem lhe deitou agua]. Um milagre, portanto.
Bh: Pois é isso, gerou e nem precisou de o fabricar porque é Deus, mas ouve, não achas que isso tem uma certa semelhança com os dias de hoje!? quer dizer, o BCE – a imprimir notas – a inflacionar a massa monetária – a poder satisfazer os países pobres. Ahh?

: Pá, ouve, Braveheart, desculpa lá, guarda essas teorias para as nossas sextas, tenho que preparar a missa; agora não tenho tempo.

Bh: Ó zé, vá lá, falas sempre nas mesmas cenas nesses teus discursos domingueiros. Ouve, aproveita, sobe ao púlpito e fala sobre a inflação do vinho, meu. Vou aí no natal ouvir-te e tudo.

: Não. Não me apareças na missa, que fico acabrunhado. Ou se apareces não me digas e senta-te lá ao fundo quietinho… e não levantas o braço, nem me acenes, muito menos faças aquela cara de riso quando levanto a taça do sangue de Cristo.
Bh: Ok, vou lá para o fundo, do lado direito e vou vestir-me de vermelho... vivo. 

: Epá, não. Queres que diga que Ele inflacionou o vinho, é isso?
Bh: É. Por agora chegava isso... depois, talvez, possas fazer do Exemplo a conduta a seguir pelo BCE e…

: Está bem pronto, vou dizer isso já neste domingo.
Bh: Estás a mentir-me.

: Eu não minto Braveheart, já sabes disso.
Bh: hmmm, então porque é que puseste herdade do perdigão no copo da celebração, quando dizias que aquilo era simbólico e o sangue de Cristo e não-sei mais-o-quê…

: São coisas diferentes, e depois foste tu que me ofereceste a garrafa. Achei que devia usa-la na melhor altura e em honra da melhor Coisa.
Bh: Pois pois zé. Percebo-te bem. Vê lá não inflaciones o perdigão na taça de celebração ao Senhor… e te esqueças de falar sobre a inflação do vinho feito Exemplo nas bodas de Canaã.

 

Bh – Bem, Ricardo, parece que convenci o nosso padre zé a falar sobre o assunto.

Rb –Nãaa. Não acredito, ele comprou essa estapafurdice?

Bh – Claro, não sabes Rb, são os pequenos exemplos que nos fazem ver a luz…

Rb – Ó Braveheart, ainda se intuísses que Ele percebia de Alquimia, porque transformou a água em vinho, agora, veres nisso um exemplo de boa governança e finança, parece-me, digamos, uma bocadinho coiso.

Bh – Pamordeus Ricardo, não estás a ver a coisa bem vista, vê bem, Ele é uma génio financeiro e…. aiii, porra, liga a luz, porque é que me deste um estalo?

Rb – Eu? não, não fiz nada, mas…

Bh – Fogo Ricardo, tiraste outra vez o prego da mão direita do crucifixo.

Rb – Não pá, deve ter caído… é cruz velha, sabes?

Bh – hummmm!

 

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

…incertos monstros feitos em pós de certezas

 

Não nasci em Braga no ano de 1963. Esta é a mais pura das verdades. Também não nasci nos cinco anos seguintes, nem em Braga, nem nos arredores. Aliás, nem sequer nasci em Braga.

Quem alvitra que nasci em Angola ou Moçambique, erra por um hemisfério de distância. De resto, enunciar aqui todas as localidades em que não nasci ocupar-me-ia por uns bons meses, correndo, ainda assim, o risco de não ser exaustivo. O certo é que era Outono, Outubro, dizem, e o sol estava prestes a finar.

Animado pela decadência do calhau celeste, predispus-me a contraria-lo, como sempre – a contrariar – e vir à luz, por obras dos ímpetos mais tardios do meu saudoso pai vindo das guerras além mares. Para o efeito, havia que ajuntar-me ao que ele somou e, finalmente, desembaraçar-me de minha santa mãe. Por via disso, sensivelmente nove meses depois, lá me apresentei eu à rampa de lançamento. Armado dos meus 3 quilos e qualquer coisa, fui duma audácia sem limites: lancei-me neste vale de lágrimas disposto a tudo. E, sobretudo, a vender caro o riso das sortes.

Desde então tem sido uma odisseia. Uma luta entre pares, eu e as sortes. Neste momento, aliás, navego entre a espada e a parede, bem no meio, entre a cruz e a caldeirinha e entre o Indico e o Atlântico num tormentoso cabo de incertezas.

Não há decisões fáceis quando a deriva é incerta. O certo é incerteza e o incerto a certeza que temos. Porém, o exemplo torna certa a coisa incerta e transforma a coisa incerta na certeza de a vencer. Por isso a luta é justa. As sortes são certas, mas o engenho é divino.

Eu vi-os, com os meus próprios olhos, prostrados nas montanhas do cabo, os incertos monstros feitos em pós de certezas que o nosso glorioso Bartolomeu Dias fez questão de me fazer ver…

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                                (Cabo da Boa Esperança)                                                                         (Cape Point)

 

… e são, enfim, esses pequenos grandes nadas feitos no exemplo dos gloriosos, que me dão certeza que não há incerteza que não possa ser vencida.

 

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