sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

uma cabecita com cabelo preto…

… e, à medida que ia saindo, eu ia olhando de esguelha… via uns gráficos, umas linhas com altos e baixos que iam sendo impressas… e olhava para a cara da senhora que atentamente ia segurando no papel enquanto saía lentamente.
Era mais útil perceber nas feições da médica o significado das linhas, do que interpreta-las directamente; apenas sabia que, enfim, uma sequência de muitas linhas com picos altos, significaria qualquer coisa…
Deitada, bem ali ao lado, estava a minha mary, com a ansiedade de quem não sabe bem o que a espera…
Estava decidido… estava na altura… estava noite, e a minha missão naquele momento era leva-la para a maternidade…
Ardia de ansiedade, exasperava de medo, se pudesse congelava-me… mas fechava esses sentimentos bem cá dentro… a mary tinha que estar calma, sobretudo era importante (re)incentivar-lhe a esperança…
… estava a dar na televisão da sala de espera o programa ‘menino tonecas’…
…20.30h… ao colo da enfermeira vestida de verde, vi dois quilos oitocentos e cinquenta gramas de gente, embrulhada num cobertor verde acastanhado… pude ver uma cabecita com cabelo preto meio meloso… nem sabia o que fazer… era a minha filha, a minha maggynha… apenas queria que ela fosse rapidamente para a neonatologia… estava lá a minha mãe e a minha outra mãe, mãe desta nova mãe.
=] beijocas
Ocorreram-me de imediato duas perguntas…
sim, a minha mary estava bem… sim, a maggy ia logo logo para a neonatologia, como eu prudente e traumatizadamente exigi à directora do hospital.
Vesti uma bata amarela, umas luvas, uma touca na cabeça… e inspirei e suspirei vezes sem conta, afinal de contas já lá tinha estado há uns anos…
… espreitei e, fixando os olhos para onde as enfermeiras apontavam, vi-a naquela caixinha de vidro… e ela viu-me claramente e reconheceu a voz… era a voz daquele palhaço que durante 8 meses ela teve que gramar, sem ter sitio para fugir nem uns headphones para se isolar…
A enfermeira insistia para ser eu a dar o 1º biberão, ao mesmo tempo que dava instruções sobre paragens para arrotar, levantar, esperar, tapinhas nas costas… o resultado foi um valente vomito para cima do progenitor, moi même, uma espécie de ‘toma lá que é para aprenderes’ … a enfermeira assegurava que era normal… e a minha mary ainda estava e estaria no quarto para recuperar…
Ao fim do segundo dia de prevenção na neonatologia, os serviços devolveram-na aos cuidados exclusivos da mãe e do pai… tudo tinha corrido bem, finalmente.
Até aos 4 ou 5 meses, adormecia ao meu colo ao som da musica… e eu dançava calmamente agarrado a ela e cantava baixinho o Pedro Abrunhosa… «se eu fosse um dia o teu olhar…»… devia ser a única alma deste mundo que gostava de me ouvir cantar… anyway, funcionava muito bem, uma espécie de relaxante e ela adormecia tranquilamente… não queria outra coisa.
Ao fim da tarde, quando eu chegava do trabalho, a primeira coisa que ela fazia era arrastar, com dificuldade, a ‘enorme’ cadeirinha de costas… queria dar uma volta pela quinta com o pai… fizesse sol, chuva ou neve… e eu vestia-a com todos os casacos disponíveis, colocava-lhe uma gorro na cabeça, e saíamos pelo campo fora… chegava a casa já a dormir… andar a cavalo dava-lhe cá um sono…
Nasceu portanto no Porto, ouvia Abrunhosa enquanto bebé… só podia ser adepta incondicional do ‘Puarto’…  acho até, que estas coisas são genéticas;
Eu é que saí desviado… uma qualquer cópia ou réplica das células do meu pai,  que correu melhor do que o previsto… quer dizer, frequentemente acontece na natureza, a evolução humana tem destas coisas… as cópias tornam-se melhores que os originais… senão, era lagarto ou calimero, como preferirem…
… mas podia ser pior, jasus… uma qualquer trépida ave de rapina, for that name shall not be spoken.
A este propósito, a maggy, já com os seus três anitos divertia-se fortemente com estas questões clubistas… quando ia ás compras com a mãe, trazia SEMPRE uma cerveja dos Papoilas Saltitantes… a ideia dela, era fazer-me abrir a porta do frigorifico como normalmente faço… e ver a minha reacção quando mesmo à frente, na primeira prateleira e bem em destaque, via uma cerveja com rotulo vermelho a ostentar uma desagradável ave de rapina… e eu, fazia a minha parte… exagerava na manifestação de indignação, sem esforço, vá… o que fazia a minha maggy rir-se perdidamente… e a fugir ela gritava «pai, pai… impiiica… uaão piinto».
Criança alegre como ninguém… e sempre disposta a colaborar com os pais, com um bom senso fora do comum; leva-mo-la para todos os sítios… nunca, por causa dela deixamos de fazer o que quer que fosse… em férias, até adormecia numa discoteca… baril.
Hoje já não é criança… faz 13 anos… adolescente, e muito minha amiga; tem um espírito saudável, alegre, fresco e agradável… um bocado cyber-dependente demais para o meu gosto… mas pronto, também deve ser genético, acho que nasci a teclar no spectrum 56k… e a jogar o ‘manic miner’ e o ‘pacman’.


Tem um feitio semelhante ao meu, mas para melhor, acompanha-me (ou serei eu a ela?) nos jogos da playstation :) :)… o ‘gta’ e o ‘pro evolution’… aprecia a musica que eu aprecio (a que esta a passar)… gosta de ver os mesmos filmes que eu gosto… vê-mos juntos o ‘supernatural ’ cheios de pica, série que um pai decente não devia deixar uma filha ver… adora aventuras radicais como eu (ainda vamos juntos saltar de um avião como em cuba ;))… no fundo também eu sou um teenager de espírito, uma espécie de irmão mais velho… valha-nos a mary para certas e determinadas coisas…
… apenas exerço as funções de progenitor se sentir alguma ameaça para ela ou para mim próprio… tipo ela sonhar um dia em sair à noite com as amigas, ou amigos principalmente… ou decidir uma questão importante, de quem é o comando da televisão.
Não sei porquê mas não sou nada razoável nestas coisas… aliás vejo-me sempre a mandar um cachaço ao primeiro ‘amigo’ que aparecer com ela; pronto, mesmo sem ele dizer nada… só assim, um cachaço logo à entrada… depois logo se vê… se o gajo reagir é má pessoa, se não reagir é um banana.

Parabéns minha filha maggy… segue assim como és, escolhe sempre o que realmente gostas e queres  fazer, e fá-lo com paixão e empenho e persistência… no matter what… que sejas muito feliz.

… és muito especial para mim…

.

1 comentário:

Anónimo disse...

Deve ser incrível ter assim um pai, não é maggy?
Parece haver tanta cumplicidade...

"Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda"

Alberto Caeiro