segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

… not so civilized gajos…


Bom dia, aonde quer que me estejam a ver! Hoje, este vosso repórter, saiu da cubata e encontra-se aqui, a bordo do porta-aviões USS Fuckthemall a entrevistar o Almirante Texas Jack Fuckistamos, presidente deste circo flutuante.

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Braveheart (Bh) - Ora bem, almirante, vou directo à questão: o que significa "zona de exclusão aérea"?
Almirante Texas J. F (ATJF) - Well, significa escaqueirar aquela merda toda! In military linguagem. Very simple, indeed. No Bullshit!
Bh - Ah, bem me parecia. E "zona de exclusão naval"?
ATJF - Same coisa: escavacar aquela porcaria toda!

Bh - Correcto. E "zona de exclusão terrestre"?
ATJF - Espatifar a torto e a direito, sem contemplações. No dúvida.

Bh - Muito bem. E "acção humanitária"?
ATJF - what?!!
Bh - "Acção hu-ma-ni-tá-ria". Humanitary stuff!...
ATJF - well... Humanitary stuff or cemitery stuff, no diferença. First we bomb, then we bomb, and bomb again, just in case, quer dizer, escaqueiramos aquela shit toda, in a sistematic e simpática way.

Bh - E pessoas, o que significa "pessoas"?
ATJF - Fernandos?...
Bh - No, no. Not poets, pessoas - people!
ATJF - people? No such coisa nestes places. There is no people: somente bad gajos!
Bh - And good gajos?
ATJF - We are the good gajos. The other gajos são bad gajos!

Bh - Mas então vocês não receberam um mandato para proteger gajos?
ATJF - Oh, esses ones, são bad gajos que nós temos que proteger dos very bad gajos!
Bh - E como é que pretendem fazer?
ATJF - well, primeiro we bomb, depois veremos! Em caso de doubt, nós bomb again. Depois, we will see. Talvez we invade for our Marines brincar aos check-points. They love check-points!...

Bh - Almirante Texas, estou aqui a mirar este míssil Tomahawk... Quanto custa um brinquedo destes? How much money, compadry?
ATJF - Arround 750.000 USD.
Bh - E quantos pensa gastar em cima dos very bad gajos?
ATJF - Well, pá... Nós have metas de produção como qualquer outra indústria ou service. So, assim por alto, estou a pensar em todo o stock. This is full USA stuff, bom para o american worker. E ainda por cima tem prazo de validade, like iogurtes.
 
Bh - Mas não podem usa-los passado o prazo de validade?
ATJF - Oh no. That não seria decent. Neither legal. We have very strict sanitárias regras. O nosso Infarmed – o FDA, as we chamamos - exerce um controlo rigoroso sobre estes issues. . That's por isso que somos a very civilized country, o esteio da luz and democracy in the world!... Se atirássemos mísseis caducados aos nossos targets , seria o mesmo que um médico ministrar supositórios fora de prazo aos seus doentes.
Bh - Portanto, esgotado o prazo de validade, lixo.
ATJF - No. As a matter of facto, we are civilized, not estúpidos. Esgotado o prazo e validade, we sell it to the jus (jews). Depois, os jus vendem-nos aos not so civilized gajos.

Bh - By Jus tu mean the...
ATJF - Yes, I mean the...
Bh - And por "not so civilized gajos" significa quem, por exemplo?
ATJF - Angola, Paquistão, Portugal, Irão...
Bh - Irão?!!...
ATJF - Yes. Jus vendem-nos ao Irão, througt Venezuela or Ukrania, transformed in mini-tube-misseis.
Bh - But, não é isso insane?
ATJF - No, they are very clever gajos, estes Jus. After comprar estes mini-tube-misseis from them, os Iranians enviam-nos para o hezbolla e para a palestina. Só que como estão armadilhados com micro-emissores, pelos Jus, são facilmente detectados e recapturados pelos Israelis. Que os revendem em África. Onde os Iranianos os buy again e tornam a enviá-los to the same circle. And so on and on... It's a never ending negócio!...
Bh - Bem, almirante, obrigado pelo seu tempo e pelos esclarecimentos. Agora agradecia apenas uma boleia de helicóptero até à Líbia. Convém ouvir a opinião dos bad gajos acerca da vossa terapia de choque.
ATJF - No problema. And by the way, não quer autografar este next Tomahawk?...
Bh - Ok Compadry... posso fazer um coração com uma seta e uma dedicatória?
ATJF - Whatever queiras!...
Bh - Ok. Então... «braveheart misses mary n’ misses maggy n’ spidermario too)»
Bh – Já agora, almirante, não quer mandar este tomahawk para Braga with me atado com um parashute and sem ignition?
ATJF – Braga, is that em Lisbon?
Bh – Não, em Portugal, no norte.
ATJF - Here o que nós podemos fazer: eu can send you no tomahawk, largo-te em Braga, but i can do nada about de ignition, my man, sorry.
Bh – Ok, não há problema Almirante, largas-me lá e de seguida manda-o inverter o curso rumo a sul e mergulhar como uma águia sobre um tasco que a perdeu.
ATJF – Deal.

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quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia dos pais

- Alô pai?
- então Caco, bons ouvidos te oiçam. A última vez que me ligaste foi...
- Eu sei, eu sei foi... mas penso em ti todos os dias.
- Hummm
- A sério pai. Consulta aí os anjos a ver se não é verdade. É, pois.
- Eu sei.
- pai, ando para te perguntar isto faz tempo.
- Diz lá.
- Como é isso por aí?
- Tu sabes que não posso revelar essas coisas.
- Épai, mas revela lá algumas coisinhas. Tem bolsa de valores e banqueiros e jogos de futebol; como se deslocam de um lado para o outro, voam, tem coches celestiais, tem moças bonitas, como é?
- Tem tudo isso. Movemo-nos por indução mental.
- Uau, e tens amigos ou andas sempre por aí sozinho a vaguear com o jornal debaixo do braço?
- Amigos e familia. Muitos. São almas com quem tivemos contacto quando andei por aí. Jornais também temos; e eu até tenho uma coluna no Celestial Post.
- A sério?
- Sim, a sério.
- De que falas nesses artigos?
- Discuto.
- Discutes o quê?
- Não discuto o quê. Discuto apenas. Há hábitos que não se perdem assim de repente.
- Pois. Bons bravos hábitos. Mas discutes com almas, como direi, de pessoal já falecido ou metes-te à discussão com hierarquias superiores?
- Como sabes?
- Não sei, estou a perguntar?
- Tive um diferendo com o Arcanjo Gabriel.
- Oh!
- Pois, eu sei, não devia. Ele priva com Deus e fui chamado à Sua presença por causa disso?
- E então, esclareceste que essa estória é apenas uma hábito terrestre e...
- Bem, ahhh, quer dizer, acabei a discutir com Deus.
- Uichhh, condenou-te?
-  Quase. Por milagre safei-me.
- Milagre de quem?
- Do teu filho primogénito, meu neto.
- Como assim, o Ricardinho que...?
- Sim, o rapaz ascendeu a altas esferas celestiais.
- Não!?
- É, tem funções de anjo advogado de defesa dos arcanjos.
- Ah meteste-lhe uma cunha então?
- Não é preciso. Eu vivo com ele desde sempre. Ensinei-lhe tudo o que sei sobre leis e códigos e ele tirou o curso com elevada classificação. Até o Diabo o sondou a ver se o recrutava para dirimir argumentos de posse do Paraíso.
- E ele, não aceitou?
- Não. Ele é o terror da litigação contra demónios.Nada o demove desse desiderato.
- E como é que o tentaram aliciar?
- Pela negativa. Esse foi o erro dos demónios.
- Como assim?
- Disseram-lhe que teria companhia da irmã se não aceitasse a oferta. Um logro.
- Filhos da...
- Pois. Mas ele não cedeu à chantagem.
- Isso. Mas essa postura significou infelizmente que a irmã lhe fez companhia,
- Sim, é um facto, sabes bem. Também cuido dela desde sempre, ara que saibas. Mas o teu filho tinha um plano maior para fazer o que fez.
- Sim, qual é esse plano?
- Assegurar-te mais dois.
- Fónix. Estou baralhado.
- Eu explico: O logro é que ela já viria na mesma por designios do Altissimo e o teu filho percebeu-lhes a artimanha.
- E fez com eles um acordo, com aval de Deus.
- Que acordo foi esse?
- Assegurar-te dois sublimes e maravilhosos filhos. As partes que podiam obstar ao seu nascimento foram enredadas no acordo que ele fez.
- Nem o Diabo, nem o Altissimo intervieram para prejudicar que pudessem ter éxito. O Mário e a Margarida.
- Estás  a brincar comigo, isso foi mesmo assim?
- Claro que foi. Até te digo mais, O Altissimo, que tudo pode, à socapa botou neles uma centelha especial. Serão dois anjos.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Highway to HELL







No dia do meu aniversário acordei ligeiramente mais tarde. Tinha estado a ler excertos da ‘Divina Comédia’, na internet, noite adentro.

Nesse domingo de manhã, Cavaco Silva discursava a propósito das comemorações da implantação da república. Readormeci. Um comprimido de política genérica é excelente para quem sofre de insónias. Que tome boa nota o senhor ministro da saúde para poupanças na factura medicamentosa.

Adormeci durante cerca de uma hora e picos.
Nesse espaço de tempo sonhei tão densamente quanto os textos que tinha acabado de ler.

Naquele, tinha sido resgatado da velhice. Olaré. Não há forma de deixar de ser o actor principal quando cerro as pálpebras. Deve ser uma compensação, sei lá.

Mas é nessa condição messiânica e heroica que a minha alma se revê quando descansa. Eu sei lá porquê. Não sei. Pois, então, se não fosse uma injeção de delírio caprichoso que os neurónios debitam quando repousam, que piada teria sonhar?

Eu gosto de filmes épicos. E de novelas também.  Mesmo as brejeiras., embora nunca saiba bem se realmente as vi. Nunca sei, mas também não faz mal. Serve de paliativo indutor para o santo descanço.
Pois bem, lembro-me apenas do senhor presidente da república a dizer umas coisas e…

...
...

… e proferiu, então, a decisão de me enviar  às profundezas. Profundezas e quenturas.
Não consegui obter resposta à pergunta que Lhe fiz. Ele estava decidido e determinado. Eu diria mesmo: obstinado.
 Virou-me costas, por assim dizer, e segredou com alguém. Pareceu-me o Diogo Morgado, mas não tenho a certeza.

-Olhe, se faz favor, senhor homem-pássaro, pode voltar a chama-Lo, queria dizer-Lhe mais uma coisinha. Pode ser?
-($/%)$)$4  4$nfn4

- Que língua é essa? Não percebo o que diz.
- Não sou um homem-pássaro.

- Parecia-me o Vultan, amigo do Flash Gordon, por causa das asas.
- Sou um anjo. Tenho de levar-te para o inferno.

- Não acha melhor ministrar-me um estágio para formação operacional. Nunca lá estive e não sei bem como proceder. E depois funcionaria como espécie de meio transitório de adaptação do corpo ao clima. Ouvi falar que isso era coisa importante quando perdemos com os boches no mundial de futebol no Brasil.
- Não tens corpo. És agora uma entidade imaterial.

- Mesmo assim, ainda sinto arrepios, e até uma ligeira coceira nas partes baixas. Não estou devidamente preparado, não lhe parece? Podia ser nas Bahamas – imagine - dizem que é  quente e tem vulcões. Um local perfeito para estágio.
- O estágio já te foi dado. A juventude e a meia-idade. Retiramos-te da velhice para te alojar no inferno. Da velhice, precisamente, porque os pecados cometidos na velhice são mais graves e dificilmente perdoáveis, pelo que não poderias fazer o que vais fazer nesta viagem se não te resgatássemos da velhice.

- Qual viagem?
- Highway to hell.
- A tournée dos AC/DC?

- Não. Todos os seres humanos vão para o inferno. Até o Filho por lá passou, para exemplo e expiação, sem ter cometido, porém, pecado. Mas não foi lá esquecido. Foi resgatado ao terceiro dia. Tu visto-O há pouco.

- Nossa, não era o Diogo Morgado! Era mesmo Ele? Pressinto que vou desmaiar, vejo as coisas a girar…
- Óptimo.  Está na hora de te inculcar informação, rapaz.
- Inculcar, tipo uma ligação ao sistema Matrix onde aprendo golpes de karaté e a pilotar helicópteros e instruções para deter balas infernais, suster-me no ar com ares de Keanu Reeves e… ?

- Sim, mais ao menos isso. É o estágio, digamos. Acompanhar-te-ei durante algum tempo até chegarmos ao primeiro circulo do inferno e… Ah desmaiou, finalmente.
...
...
- É aqui o inferno?
- Aqui é o local por onde Lucifer embateu quando foi forçado à queda, perfurando um abismo imenso até ao centro da Terra. É o local de entrada. O Portal do Inferno.
- Olha, pois é, lá está o arco com o aviso que diz «Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança...». Que medo.

- O inferno é constituído por Nove Círculos, e dentro destes há Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final. O primeiro é já ali à frente, o Limbo, onde estão as almas de Sócrates, Aristóteles… e estiveram as almas de Adão, Noé, Moisés, Abraão, Isaaq… é um local de passagem obrigatória onde permanecem unicamente os virtuosos pagãos. Os outros vão para círculos inferiores, digamos, mais densos.


- Fico-me pelo primeiro, então, certo?
- Tens de passar em todos os círculos e...

- Não percebo. Então, se fiz asneira, diga-me a que círculo corresponde a intensidade dos meus pecados.
- Fizeste muita asneira, graças a Deus, mas não é por elas que vais ao inferno. Foste escolhido para uma missão Divinal, no inferno todo.
- Eu?

- Lucifer, ao contrário do que se pensa, tem uma vontade firme e ilimitada em viver no Paraíso. Ele adora e anseia pelo paraíso.

- A sério?
- Sim, ele quis o Paraíso que Deus construiu. Mas também não gostou nada da ideia de se submeter a um Homem feito Verbo. Usou várias formas ardilosas para comandar o paraíso. Os círculos representam a intensidade de todas essas formas rasteiras que ele usou para se substituir a Deus e perpetuar os comandos do Paraíso. Mas Deus antecipou-se e castigou-o, lançando-o violentamente para o abismo, fazendo-o sofrer as agruras das acções cometidas em todos os círculos do inferno.


- Ok, parece justo. Mas e eu, porque é que devo seguir os mesmos castigos de Lucifer?
- Do Abismo, Lucifer pretende agora usar os métodos que Deus usou para a efectuar a Criação no sentido de retornar ao paraíso e conquista-lo finalmente.

- Como assim?
- Deus fez-se Carne, há uns tempos, para entrar no Inferno. Naquele local só pode entrar quem encarnou. Sofreu na Carne as agruras da vida e, na cruz, a consumação do objectivo, com o fim de ir parar ao inferno de onde resgatou algumas das almas virtuosas, abrindo a porta para que os seres humanos de boa índole pudessem elevar-se aos Céus.

- Fogo.
- Jesus representa a libertação do jugo onde Lucifer fez perorar todas as almas desde que caiu. Foi a Chave para abrir a fechadura ardilosamente feita por Lucifer, pelo que, a partir dessa altura, a passagem dos infernos para os céus processa-se por méritos, automaticamente após estágio no primeiro círculo. Antes de Jesus não havia acesso ao paraíso, portanto., porque Lucifer tinha bloqueado o sistema de ascensão.

- Porra! Jesus morreu mesmo por nós. Eu pensava que eram babelas.
- Pois.

- Mas então que missão divinal me foi atribuída? Jesus não resolveu já a coisa vencendo Lucifer por KO técnico e na sua própria casa?
- Sim. O problema é que Lucifer está a usar métodos mais apurados, a replicar os do Altissimo, que colocam Deus numa situação melindrosa do tipo: para fazer bem à humanidade tinha que fazer mal.

- Ai sim?
- Sim, Lucifer está a usar a humanidade para aceder ao Paraíso. Ele não age por sua própria conta nem usa os seus próprios braços. Usa a humanidade para fazer o serviço.

- Mas não foi dessa forma, embora de sentido oposto, que Deus agiu quando encarnou em Jesus? Quer dizer, Deus também usou de ardil para entrar nos infernos através da morte de Jesus e reformular o modo com algumas almas podiam ser salvas e rumar ao Paraíso.

- Sim, foi. E esse é que é problema. Deus considera a humanidade e usou-a para beneficio dela mesma enviando o Filho. Ao passo que Lucifer a quer usar para perversão do sistema de ascensão aos Céus e enfileirar-se no sistema para aceder ao paraíso e conquista-lo.

- Epá. Mas então, como é que esse camafeu do Lucifer está a fazer esse uso da humanidade?

- Dir-to-ei mais à frente. No segundo círculo do inferno há um juiz à entrada para julgar o nível do círculo que o teu passado comportamental pressupõe. A esse juiz está vedada a hipótese prática de conscientemente aldrabar a pena, sob pena de colocar nas profundezas desse Inferno um anjo dos bons enviado por Deus. De forma que esse juiz tem de ser imparcial.
- Hummm, pois, Deus podia enviar um agente duplo.

- A ideia é conseguires passar o segundo círculo, onde és julgado, que é onde começa verdadeiramente o inferno, e seres condenado ao último circulo, o nono que, ao contrário do que pensas é o nível de gelo e não de fogo.

- Fogo, é de gelo?

- Dentro deste circulo estão imersos os traidores, representados por Lúcifer, o traidor de Deus, que aqui reside. Os traidores distribuem-se em quatro esferas diferentes dentro do nono circulo, dependendo da gravidade da traição cometida. As esferas chamam-se: Caína, Antenora, Ptolomeia e Judeca. Lucifer está na esfera Judeca. Nesta esfera reside Lúcifer, preso no gelo até o meio do peito, peludo, com enormes asas que possuem membranas como a dos morcegos no lugar de penas que provoca um vento sentido por toda a esfera. Ele tem três cabeças e com cada uma delas, morde um dos três maiores traidores da história: Judas, Brutus e Cassius. O numero de cabeças está a crescer e estão em fila de espera vários outros grandes traidores. O nome da esfera vem de Judas, o traidor de Jesus.

- Valha-me Deus. Eu vou para aí?
- Vais.

- E o juiz imparcial? Ele vai detectar que eu nunca fui um Judas ou um Cassius.
- Por isso te inculquei informação. Os sensores do juiz imparcial monitorizarão em ti condutas abjectas no teu passado e condenar-te-à ao nível de um Judas, colocando-te sob o jugo directo de Lucifer.

- Ah, a inculcação era para ele detectar um tipo de alma em mim que na realidade não fui. Uma espécie de avatar.
- Sim.

- E porquê eu e não outro melro qualquer?
- Não te posso revelar-te o motivo. Saberás no seu devido tempo.

- Detesto mistérios que envolvem a minha alma. Mas olhe, não sei se me aguento nessa empresa. Talvez me vá abaixo oh… como é que te chamas?

- Alighieri.
- Alighieri? o Alighieri que viajou em companhia do poeta Virgilio por todo o inferno, purgatório e subiu o monte rumo ao paraíso?

- Esse mesmo.
- Uau. Dantesco.
...
...
Cavaco Silva já tinha acabado o discurso quando o Ivan me telefonou ‘como é que é, vamos comer uma francesinha ali ao Lookal?’

Pois, vamos. Respondi-lhe.

O sonho perdeu-se naquele momento, mas recomeçou nessa mesma noite. No exacto ponto onde o deixei. É incrível, eu sei. Creio que os meus neurónios adaptaram-se lindamente às novas tecnologias. Pause’s e save’s e load’s passaram das tecnologias de silício para as de nervos e carnes, naturalmente.

Novamente, à noite, a reviver o discurso quase integral de Cavaco Silva que os telejornais insistem em apresentar e de bónus, para misericórdia, juntaram o discurso de António Costa,. Senti imediatamente as pálpebras pesadas. Ainda consegui ouvir que quer repor o feriado…
…
...

- Perguntavas-me de que forma está Lucifer a usar a humanidade para conquistar o Céu.
- Certo.
- Pois, Lucifer usa a humanidade de distintas formas e maneiras.
…


(há-de continuar)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A deslisar, sempre viscoso, qual caracolinho da Casa do Além



Cansado de remar contra a maré, decidi ser pluralista. Quer isto dizer que em cada dia da semana serei sua coisa. Passo a enumerar...

À segunda-feira:
Adopto uma postura juvenilmente nacionalista. Com tatuagem e piercings a rigor, hesitarei entre dedicar-me à criação duma espécie de rafeiro lusitano com pedigree ou uma variante espirituosa de tuga peregrinus, em romaria pelo melhor dos mundos. No pior dos casos, ultrapassarei o entorpecimento ancestral dos brandos costumes, elaborando cargas homicidas ou raides punitivos contra a claque do clube rival, ou daquele que estiver mais a jeito nesse dia.

À terça-feira:
Serei marxista-leninista-stalinista.
Acharei bem que se mate, interne ou dê sumiço a quem não concorde comigo porque põe em risco a revolução e o caminho para a redenção humana. Morrem, são lobotomizados ou evaporam-se por uma boa causa e o que conta é a intenção. Os fins justificam os meios. Ámen.

Às quartas:
Serei democrata-liberal, de manhã; e democrata-neoliberal, à tarde. Tecerei louvas ao indivíduo e prostar-me-ei, às toladas e vénias, virado para Wall Street, em vassalagem ao Alá-El-Mercado e à pedra negra da Sociedade Anónima. Nada de pegar em armas: apenas calculadoras, telemóveis e portáteis. As armas, abençoadinhas não obstante, apenas as venderei para que outros se matem. De preferência pretos, árabes, chinocas, SLB’s ou quaisquer dessas escórias que não o branco anglófono made em Harvard, Yale ou Oxford e a sua corte internacional de cheira-cus e beija-(B)rabos. Aproveito a confusão para mandar matar também alguns, cada vez mais, muito maus, que se opõem à redenção da humanidade pelo Milagre do Mercado, e vou sacando matérias primas e mão-de-obra ao preço da uva mijona.

À quinta-feira:
Serei democrata-cristão. Militarei sob um permanente estado de espírito esquizofrénico: a minha metade liberal, qual Caim belicoso, tentará matar a outra metade devota; a parte de mim que venera Mamon, arma emboscadas à minha parte que louva a Deus. Durante o dia, aproprio-me o mais possível; durante a noite, em sonhos distribuo. Pelos lençóis.

À sexta-feira, hoje portanto:
Serei da esquerda evoluída, lacoste. Só matarei embriões e tipos vegetalizados em camas de hospital. Em suma: coisas que não se possam defender. Pensarei também, muito, nas indumentárias, maquilhagens e penteados que melhor se adequam à próxima manifestação: aquela em defesa de facínoras, psicopatas e serial-killers, coitados, que o sistema fassista quer condenar à morte, no Texas ou na Cochinchina. No fundo, serei uma espécie de marxista-leninista desóssado. A deslisar, sempre viscoso, qual caracolinho da Casa do Além (os melhores do país, passo a publicidade), de corninhos retrácteis e a causa às costas.

Aos sábados:
Serei republicano laico e progressista. Aqui é muito simples: comer e buber, ó terrim-tim-tim, passear no mundo. De manhã, à tarde e á noite. Às expensas do erário, evidentemente.

Ao domingo:
Serei conservador. Vou à missa, comungo e confesso todos os meus pecados. Dou banho à alma. Sou absolvido e recomeço tudo de novo. No meio de tudo isto, é importante conservar os escrúpulos e a consciência distraídos com qualquer coisa.

Agora não me venham dizer que não sou um gajo moderno.
Se isto não é ser moderno, então não sei o que seja. E duvido mesmo que tal disparate exista.

sábado, 22 de junho de 2013

... acordar devastado a meio da noite, prefiro uma Sónia a uma Insónia...

Tive um pesadelo. Daqueles horripilantes.

Começava comigo a acordar, uma insólita manhã, transformado em Político. Nada mais, nada menos que um Passos Coelho, ouviram bem. Já me tinha acontecido isso no passado recente, com o político anterior a este, José Sócrates de sua graça. Ambos (pesadelos) tenebrosos, em intensidade e grau.

Anyway, ao princípio, ainda estremunhado, ao descerrar as pálpebras, era apenas uma sensação bizarra, de um estranho desconforto. Mas, quase de seguida, o desconforto transformou-se em angústia e, ainda não tinham passado cinco minutos, já a angústia degenerava em horror.
Apesar do grande trauma que ainda agora me dilacera e me descompassa o sistema cardio-vascular, não resisto à narrativa. Tenho que contar a alguém, partilhar com terceiros esta medonha experiência... Talvez haja por aí um exorcista benemérito para esta maldição que padeço.

É verdade que eu, como referi, descerrava as pálpebras. É o que geralmente as pessoas fazem, ao acordar e, nisso, um Bravo, incrivelmente, não difere das pessoas.

O problema é que quanto mais as descerrava –cheguei mesmo a escancará-las com desespero e desmesura – mais negras e densas me surgiam as trevas em redor. Dir-se-ia que eu flutuava num aquário de trevas.
Porque, verdade verdadinha, quanto mais escaqueirava as vistas, menos via. Mau!, pensei para com os meus botões, queres ver que acordei a meio da noite, devastado por alguma insónia?!...

Toda a gente sabe que eu, a acordar devastado a meio da noite, prefiro uma Sónia a uma Insónia.
Aliás, a insónia, está provado, só se instala na ausência da Sónia [isto vai dar problemas com a Mary, ai vai vai].

Mas não nos afastemos do essencial, falava-vos daquele estranho breu. Por causa das dúvidas, estiquei o braço na direção do candeeiro. Experimentei então a curiosa descoberta de já não ter braço. Pelo menos, o direito. Pôrra!, pensei, mas que merda vem a ser esta?! Queres ver que alguma brigada de traficantes de órgãos me amputou o braço durante a noite!...

Convenhamos que uma brigada dessas é pior que um acesso de insónia. Diria mais: muito pior. Acho mesmo que foi a partir desta conjectura que a angústia se instalou.

Ora, em momentos de angústia eu cultivo o pouco recomendável tique de coçar os tomates. Vocês não sei, mas a mim ajuda-me a coordenar e reorganizar as ideias.

À falta da mão direita, desaparecida com o respectivo braço para parte incerta, tive, naturalmente, que recorrer à esquerda para dar andamento à deselegante função. "Tive" é força de expressão, porque na realidade também a esquerda, verifiquei-o com amargura, primava pela ausência. Estou em crer que esta alarmante constatação iniciou o processo de transformação da angústia em horror. Nesta fase, se isso vos interessa, comecei a sentir aflição. Muita. O caso não era para menos, até porque a suspeita da brigada de pilha-órgãos agravava-se: quem rouba os braços também rouba os olhos, rouba os rins e, pior que tudo, supremo furto, até subtrai os testículos!

Nestas alturas vertiginosas, um homem lembra-se sempre de Deus. Um Bravo, aí, também não difere muito. Ó Deus!, carpi eu, já a ficar preocupado. Tu não ias permitir uma safadeza dessas, pois não?!
Mas então lembrei-me das safadezas todas que são autorizadas por esse mundo fora e um cabrão dum cepticismo teológico instalou-se-me no pensamento e desatou a dar-me nós na figadeira. Não há nada mais nefasto para a esperança dum indivíduo que o filho da puta dum cepticismo. Minúsculo que seja, basta uma gota para poluir um oceano. Veneno mais contaminante não conheço. Deixei-me de rezas e virei-me para os factos. Quando a oração não funciona, há sempre o anestésico, e nisso a ciência é o que de melhor há para camuflar a coisa e iludir o mamífero. Vejamos, ponderei, apelando à lógica, deve haver uma explicação científica para tudo isto.

Atrevi-me mesmo a enunciar uma tese: se calhar, não sinto os braços porque estão dormentes. Eureka, quase gritei. Animado por esta perspectiva, e no fiel cumprimento do método científico, dispus-me a validar quanto antes tão promissor enunciado. Para o efeito, bastava levantar-me, fazer um pouco de exercício, até que a circulação de sangue se normalizasse por todo o organismo, e voltaria a sentir os braços, coçaria os tomates, abriria os estores, a luz do dia devolver-me-ia a visão (tudo por esta ordem prioritária), e eis-me de volta à normalidade.


Nada, portanto, mais simples e todo aquele mal entendido se dissiparia. 

Mas a minha saga de arrepiantes descobertas ainda não tinha terminado. A que me aguardava no instante seguinte não só confirmava como agravava as anteriores. E atirava com a ciência para o mesmo sítio para onde já despachara a religião. Estais preparados? Já retirastes as criancinhas da sala? Tendes o testamento em dia?


Pois aí vai:
Ao querer levantar-me – naquele salto atlético, felino, viril, que me caracteriza e é apanágio e timbre das últimas vinte gerações da minha família, pois, bem, ao ensaiar esse gesto quotidiano mas não obstante sempre glorioso – pude testemunhar, em primeiríssima mão, que não só, a juntar aos braços, me faltavam as pernas, como, por artes rasteiras de sabe-se lá que coiso demoníaco, não restava nenhuma das minhas outrora lindas e queridas vértebras.
Pude também perceber que, em lugar da espinha dorsal com que sempre me conhecera, equipava-me agora uma dura e convexa carapaçazinha que, a fazer fé no design, me assemelhava perigosamente dum qualquer insecto comedor de bosta.

Salvo erro, foi nessa altura, no preciso momento em que me vi transformado num repugnante insecto – o político, que ultrapassei a angústia, despenquei da aflição e mergulhei de cabeça no mal cheiroso e genuíno tanque do horror. Imaginai-vos equipados de pelos, armadura bocal trituradora e metamorfoses completas, essencialmente sem coluna vertebral, e dizei-me cá se não é caso para cagaço completo?

Mais que completo: absoluto! Não vos recomendo a experiência. Do que um Passos Coelho pensa guardo-vos para outra ocasião. O Horror, como a melancia, requer tempo de digestão.
E se não faço agora um pequeno intervalo, é mais que certo que ainda vos borraríeis todos pelas pernas abaixo. Isto, aqueles que não vomitassem as tripas, preferindo o esgoto superior ao anterior.

Por falar nisso... para a segunda parte trazei daqueles saquinhos de avião. É mais que certo que ides precisar. Dão um jeitão do caraças quando a náusea se instala, o chão desata a girar alucinantemente e nós, à falta de Deus, da Nossa Senhora e dos santos todos, vemo-nos sem outra alternativa que gritar ao Gregório. Bem alto!

sábado, 19 de maio de 2012

A Restauração do Canibalismo






Bh – Ricardo ainda bem que chegaste, tenho estado a pensar em formas de resolução de alguns problemas do país.

Rb – Era suposto ser eu a pensar, mas enfim, diz lá.

Bh – Dos vários tabus civilizacionais - mais ainda que o incesto, a pedofilia, ou o infanticídio - há um que sobremaneira me repugna: o canibalismo. Mas, bem vistas as coisas, e ainda mais os tempos em que vivemos, cheguei à conclusão e sou forçado a reconhecer que é apenas mais uma prova de como sou um indivíduo preconceituoso, obscurantista, bota de elástico e até, a limite, faxistóide. E irrealista. Muito. Irrealista e obstinado. Todavia, decidi arrepiar caminho. Nunca é tarde para nos resgatarmos às nossas inibições, digo, erros.

Rb – De que falas Braveheart?

Bh- Ahh de canibalismo.

Rb – Estás doido!?

Bh – Não pá, estive a pensar no desemprego em Portugal, a nossa pátria e, enfim, de modo a compensar o nosso Portugal de todos estes meus atrasos, decidi lançar-me na proposta dum avanço tão natural quanto lógico para a resolução do problema.

Rb –hummm

Bh – Vê bem, como diz a Bíblia Sagrada, há um tempo para tudo. As pessoas, não sei porquê, tendem a ler o tudo como um quase-tudo, mas fazem mal: é mesmo tudo que está lá escrito.

Rb – e…

Bh - E se está lá escrito, quem somos nós para duvidarmos? Eu, por mim, deixei de alimentar dúvidas. E basta-me olhar à minha volta - ver telejornais, jornais, filmes, revistas, blogues e facebocas (twits é coisa que ainda não adquiri estômago para frequentar, mas, concluído o curso de faquir cibernóico que venho frequentando, lá chegarei; não percas a fé) - pois, como dizia, basta-me a realidade circundante para que uma fria e arrepiante certeza me invada.

Rb – Estou cansado Braveheart, vai directo ao assunto…

Bh – Certo. Ora, isto é como tudo: há um tempo para a subida e há um tempo para a descida; há uma tempo para a paz, e há um tempo para a guerra; há um tempo para o amor, e há um tempo para o ódio; há um tempo para o nascimento e a juventude, e há um tempo para a velhice e a morte. É uma lei eterna e imutável, esta coisa do Tempo. Por isso, capacitemo-nos: houve um tempo para a civilização e agora há um tempo para o seu contrário. Houve um tempo para erigir - e que belas catedrais e sinfonias foram capazes os homens de erguer ao céu -mas agora está na hora de ruir, de estender passadeiras rolantes de cacos, lixos e entulhos na direcção do abismo.

Rb – Tenho receio do que vem por aí pá… vá desenvolve.

Bh - Nesse sentido, nós, portugueses, temos uma palavra a dizer. Bem, agora, não será palavra propriamente dita, será mais grunhido, guincho, ronco ou ruído que o valha, mas o que quer que seja, convirá que nos represente condigna... neste caso, indignamente. Em suma, urge que não se deixe vago o nosso lugar no camarote dos acontecimentos.
Rb – Caraças pá, diz lá que coisa pensas.
Bh - Vamos então à proposta concreta. E nada modesta, porque isso de modéstia é para Gregos.
Rb – Sim…
Bh - É verdade que temos pedalado, regularmente, na retaguarda do pelotão da Descivilização. Enquanto outros povos e regiões se têm descivilizado a grande velocidade, nós, muitas vezes, e até por vergonhosos períodos, temos progredido a trouxe-mouxe.
Rb – Como assim?
Bh -Ao infanticídio dos abortos, por exemplo, só recentemente lá chegámos - já inúmeros outros, em fogoso galope e tumultuoso sprint, tinham cortado a meta há séculos. No Terrorismo, na chacina industrializada, ainda vamos a milhas. Já toda a europa e quase toda a ásia e américa descansam no hotel, saboreando as delícias da sauna e da massagem, e ainda zanzamos nós, pela encosta abaixo, perdidos. Não admira, assim, que nos olhem com desprezo e desconsideração. Por este andar, assaz lerdo e entorpecido, ainda acabamos absorvidos pelo carro vassoura da prova, e um dia destes, quando se fizer a história da Descivilização, nem uma nota de rodapé, ínfima que seja, nos prestará memória.
Rb – Sim, consigo estar de acordo…
Bh - Pois chegou a hora de darmos uma violenta sapatada no pelotão! Aproveitamos o factor surpresa, e, passarmos por estes descivilizados todos a jacto, que nem um foguetão, e encetamos uma fuga mirabolante que só terminará em glória. E uma pipa de massa pela vitória, olaré.
Rb – E como daremos nós essa sapatada inaudita, espectacular e miraculosa?
Bh - Muito simples: legalizando, melhor dizendo, restaurando o canibalismo.
Rb – Como? epá que conceito macabro – a restauração do canibalismo. Queres expressão mais infeliz e, por isso mesmo, esplendorosamente marketil que esta?
Bh – Compreendo mas…
Rb - De que forma?
Bh - É simples, lógico e moderno: vamos comer os desempregados.
Rb – Nossa senhora, que dizes?
Bh - Vê bem ricardo, já os criamos em forma de gado - como a Argentina cria bois, a austrália ovelhas ou a antártida pinguins, nós criamos desempregados, manadas e manadas deles…
Rb – sim…
Bh – … falta agora processá-los consequentemente. É um monumental desperdício de carne a que a nosa economia periclitante não se pode dar. De carne, de dinheiro e de tempo.
Rb – Braveheart, promete que não publicas isto. É uma vergonha dedicares o nosso tempo a um assunto tão, tão… ignóbil, peçonhento.
Bh – Calma pá, eu explico sucintamente: ao contrário dum boi ou dum porco, um desempregado, quanto mais tempo é deixado na pastagem, mais emagrece. Por uma razão muito simples: o desempregado não pasta. Monetariamente inibido, deprimido, socialmente odiado, abominado pela própria família, o desempregado perde rapidamente quase todo o interesse culinário. A tenrura original cede rapidamente passo a um intragável emaranhado de nervo e osso.
Rb – Sim e em que é que isso contribui para a felicidade da nacinha?
Bh – Ora, como é óbvio, quanto mais o tempo decorre nessa condição, de desemprego, pior. Mas, por isso mesmo, o potencial lucrativo do desempregado é imensamente maior que o de outros gados, quer bovinos, quer suínos, quer, até, avícolas. Porque dispensa, de todo, qualquer despesa com alimentação, crescimento, engorda e parque. Dispensa e desaconselha.
Rb – Não acredito que esteja a ter esta conversa…
Bh – Mas estás, portanto, o desempregado, por assim dizer, é uma carne instantânea: mal desponta, está logo pronta a ser processada e consumida. Esse, de resto, é o seu momento ideal de colheita e abate. Assim, convém criar mecanismos de recolha e transporte ágeis e bem organizados, entre os produtores e os matadouros municipais, de modo a que nenhuma da excelência e suculência potenciais se percam com demoras e burocracias inúteis.
Rb – Ahh estás a brincar seu malandro…
Bh – Nada disso, para aqueles que ainda sintam algum escândalo com isto, como tu, convém que se compenetrem nesta incontornável fundamentação técnica que a toda esta aparente (apenas aparente) carnificina sugere, repara: numa economia arcaica, a finalidade dos agentes é produzir bens ou serviços necessários ou desejados pelas populações; na economia moderna, de que o novo Portugal se constitui laboratório radioso e radiante, a finalidade da economia (investimento, produção e distribuição) é produzir desempregados.
Rb – Prossegue.
Bh - Ora, é admissível que uma economia tenha por destino a mera produção de lixo e desperdício?
Rb - Nem por sombras.
Bh - Os desempregados não podem, pois, ser o atestado do nosso absurdo, nem o absurdo pode ser a nossa instituição. Depois... bem, depois, é todo um admirável mundo novo de possibilidades e nichos de mercado. Até porque o desempregado não é apenas imensamente mais rentável que o bovino: é imensamente e mansamente também. Um bovino ainda oferece o risco duma cornada, o desempregado nem isso.
Rb – Uma ideia dessas só encontrará, talvez, paralelo nalguns passageiros de comboio por alturas do III Reich.
Bh – Não penses assim. Lembra-te de Euclesiastes da Bíblia. Tempo para TUDO. Mas quanto às possibilidades propriamente ditas, desde menu de atracção turística nos nossos restaurantes, hotéis e festivais gourmet, até enchidos, fumados, enlatados de exportação é toda uma panóplia de mais-valias e lucros fabulosos ao virar da esquina. E a panacéia que não será para o défice!... Um Xanax para as contas públicas!... E a maravilhosa bomba vitamínica e anti-inflamatória para aquele Instituto usurário da Segurança Social, que, justamente, deverá gerir a exploração da coisa, como só ele sabe e a sua vocação essencial e treino o exaustivo reclamam!... Ah, e nunca esquecendo, o sublime paraíso para as grandes cadeias de distribuição, para gáudio e orgasmo intelectual dos Pingos Doce todos da parolóquia.
Rb – Bem, ouve, Braveheart, idealizaste toda uma industria ao redor da coisa, mas assim de repente, e desconsiderando o mau gosto da tua ideia, por acaso até me ocorrem umas cenas pitorescas de varinas pelas ruas da da cidade, rebocando pela trela, pequenas filas de jovens recentemente postos na rua e apregoando: "Olha o desempregado fresco! Olha o desempregado fresco!...", até, confesso, quase que se me humedecem os olhos.
Bh – Estás a entrar na ideia Ricardo, até te digo, proibidos de pescar no mar, que alegria seria assistir ao ressuscitar dos nossos arrastões, lançando doravante as redes em terra !... E venham cá com quotas para o desempregado como vieram para a sardinha, que os nossos bravos governantes dizem-lhes das boas!
Rb – Pronto Braveheart, já acabaste não é, agora faz um favor, promete-me que não publicas esta conversa. Prometes?
Bh – Claro que sim.
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ps. conversa imaginária inspirada na ideia daquele dragão que já não existe

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

…plenamente aptos para calcular a fundura e a duração do despenhamento…




-Então Ricardo? Não corremos mais, agora?...

-Não, agora caímos, Braveheart.

- Então, mas se não corremos não existimos. Não foste tu que estipulaste o "corro, logo existo"? Afinal, em que é que ficamos? Desistimos (que é como quem diz: "des-existimos")?...

- Além de estúpido, crónico, tens acessos de burrice, aguda! As regras têm excepções. Esta é uma delas. Quando se cai, não se corre. Neste momento não corremos porque estamos em queda livre e quando se está em queda livre a corrida torna-se redundante e dispensável!...

- Ah, portanto, despenhamo-nos. Quer dizer, caímos num enormíssimo buraco, cratera, falésia ou abismo. É isso?

- Não, pá. Braveheart, chama-se uma crise. Estamos a precipitar-nos por uma crise abaixo. Uma situação excepcional e complexa que não adianta explicar-te. Jamais entenderias.

- Mas assim, vista por dentro, deixa que te diga: parece um grande buraco. Poderá chamar-se crise, não discuto, mas é da cor dos poços imensos, tenebrosos. Todas estas trevas à nossa volta... mais parece que vamos pelo cano do infinito esgoto abaixo!... estou pasmado.

- Isso é porque estás a cair às cegas. Não compreendes. Ciclicamente, há quedas!...

- Foi pena que não te lembrasses disso antes de cairmos. Nós corríamos, num tal galope, como se nada mais houvesse, então e para todo o sempre, senão corrida e mais corrida!

- Se fossem previsíveis, as crises, Braveheart, não seriam crises. Nem teriam piada. A piada toda está em sermos surpreendidos por elas. É como nos filmes de terror! Toda uma volúpia do suspense, do frisson, do stress. Sem as crises, caía-se na monotonia!...

- Ah, finalmente, percebo: toda aquela correria era para nos despenhar-nos na crise!... Por conseguinte, "corro, logo existo, ou seja, vou prá crise." Por outro lado, vê bem, a queda na crise é boa porque é para nos salvar da queda má… caímos na crise para não cairmos na monotonia.

- Mais ou menos isso. A finalidade da corrida é a queda. Corremos para cair.

- Bem, então está alcançado o objectivo. Deveríamos comemorar, Ricardo. Todavia, estranhamente, toda esta escuridão está repleta de choro e ai Jesus-Deus nos acuda!... Em vez duma festa, mais parece um velório. Dir-se-ia que a surpresa não lhes agradou assim tanto.

- É porque são como tu: caem às cegas! De olhos fechados ou vendados.

- Bem, mas há uma certa lógica nisso, não?...

- Como assim?

- Então, uma vez que corriam às cegas, é natural que caiam da mesma maneira.

- Nem por sombras! Tu cais às cegas mas não corrias às cegas por uma razão muito óbvia e simples...

- Ah sim, qual é?

- Corrias atrás de mim. Logo não corrias às cegas: corrias atrás de mim.

- Bem, então eu corria doidamente, atrás de ti, é um facto. Tu é que corrias às cegas.

- Não eu também não corria às cegas: eu corria atrás deles.

- Óptimo, acho que percebo. Então ambos corríamos feitos doidos, eu atrás de ti e tu atrás deles: eles é que corriam às cegas.

- Nada disso. Eles corriam à nossa frente, nós corríamos atrás deles. E nós corríamos atrás deles precisamente porque eles corriam mais avançados que nós. Tornava-se impossível, portanto, não correr atrás deles. Já que eles corriam à nossa frente.

- Enfim, para não cairmos na monotonia, além da crise, caímos também na tautologia! Mas se ninguém corria às cegas, como é que agora um ror de gente cai às cegas?

- Pela mesma razão que tu cais às cegas embora não corresses às cegas: porque já não cais atrás de mim, mas à minha frente.

- Olha...pois é! Mal desatámos a cair, deixaste de estar à minha frente para passares logo para trás de mim.

- Pois, porque na queda as posições da corrida invertem-se, necessariamente. O mais avançado deixa de estar à frente para passar a estar detrás, ou seja, por cima. E o mais atrasado chega-se à frente, isto é, cai mais depressa, de modo a servir, entre outras coisas, de almofada, quando se bater no fundo.

- Muito bem, corríamos então para isto - para cair. E quando acabarmos de cair, quando batermos no fundo, o que é que fazemos?

- Batermos não: bateres. Tu é que bates no fundo, Braveheart; eu bato em cima de ti. Depois disso, é simples: corremos outra vez. Corremos para cair e caímos para correr de novo, é a lei das coisas. Tu, atrás de mim; e eu, à tua frente. Até à próxima crise.

- Francamente, não percebo porque é que depois desta crise não hei-de eu correr à frente. Até estou a ganhar uma certa perícia por aqui abaixo!... Só é pena esta escuridão toda que não deixa ver nada. Não tens aí uma lanterna Ricardo?

- Não podes correr à frente porque és um cegueta. Não terias discernimento para escolher atrás de quem é que haveríamos de correr, de modo a cairmos na crise e não na monotonia! Só eu possuo essa faculdade.

Herdei-a, ou então comprei-a, vai dar ao mesmo. Seja como for, há prerrogativas que são pessoais e intransmissíveis. As ideias, por exemplo.

- Ah, pronto. Se assim é... Entretanto, quanto tempo é que vamos estar a cair, fazes alguma ideia?...

- Aí não há problema. Logo que iniciámos a queda, comecei de imediato a elaborar um cálculo exacto, complexo e meticuloso, científico que baste. A todo o momento estabeleço uma estimativa quase perfeita, que burilo, transmito e aperfeiçoo no instante seguinte!...

- Fico muito feliz. É bom saber que os mesmos que não foram capazes de prever minimamente o abismo, se sentem, em contrapartida, plenamente aptos para calcular a fundura e a duração do despenhamento. Despencados pela falésia abaixo é que se acham em excelentes condições para lhe adivinhar as medidas!...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012