segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

… Carpe Diem…

Diz a tradição judaica que quando os sábios se reuniram para estabelecer os canones da religião, um conjunto de livros ancestrais deveriam fazer parte da Bíblia… houve violenta discussão sobre o livro do Eclesiastes… não apenas para deixá-lo fora da lista dos selecionados, mas para bani-lo completamente.
Consta que o autor seria o Rei Salomão e, foi por esta suposta autoria, que o livro de Eclesiastes foi incluído na Bíblia… e ainda bem que o foi… digo eu… pois é simplesmente brilhante…
De qualquer forma… que fique claro… Eclesiastes era um sábio de meia-idade ou mais, que tentava lidar com o medo da velhice e da morte… procurava desesperadamente por alguma coisa que dê à sua vida um significado menos efêmero… assim como todos nós, assim creio.
Um dia Eclesiastes (Salomão) perguntou… "O que dá importância a minha vida?"
Consta que ele terá tentado ter sucesso em todas as áreas… e fracassou em todas… como tantos nós… dedicou-se ao prazer em geral que o dinheiro pode conceder…
Já mais velho, percebe a efemeridade da riqueza, do prazer e do poder. Num esforço para descobrir o sentido da vida, começa a estudar.
Porém, quanto mais sábio… melhor vê… com mais clareza, as torpezas á sua volta… a riqueza e o prazer… não deram à sua vida um significado duradouro… e a sabedoria… também não… 
Eclesiastes… torna-se religioso… e também se desaponta, pois nem mesmo o alegado mais alto grau de virtude o protegerá da morte... inevitável, assim deduzo…
Na verdade, os sonhos das nossas vidas são sempre orientados para o sucesso, dinheiro, status social… et voilá… damo-nos conta que o tempo ‘ciumento’ passou…
na realidade nunca vamos conseguir ser e fazer aquilo que verdadeiramente queremos… aquele sonho secreto… que nunca ousamos revelar… o da alma… aquele que fica preso nas entranhas… cá dentro… e nunca se liberta…
Fará alguma diferença a maneira pela qual vivemos? sendo bons, honestos e compassivos… se nada disto tem efeito no saldo bancário?  assim pergunto.
… a soberania dos valores impostos… pessoas dignas quando bem-sucedidas… sempre avaliados em padrões sociais… assim me resigno…
O resultado não é apenas uma desorientação moral, mas um estado doentio… colectivo… psicótico; preocupação… a ansia por fazer planos, por sonhar á medida da escala exigida pelos padrões que pensamos serem distintos e considerados pelos… ‘outros’… sem serem os nossos próprios.
Mas a nossa vida é mais importante do que tudo isto… assim afirmo… e a nossa vida é esta… irrepetível… única… sem segunda chance… é aquela recta que vai simplesmente do ventre da nossa mãe… á “cova escura”… sem se saber quando… nem como… nem porquê… nem…
Eclesiastes (salomão) escreveu o tal livro para dividir os seus desapontamentos com o mundo, do qual li excertos… e para avisar que não devemos desperdiçar nosso tempo na ilusão de que, a riqueza, sabedoria, prazer ou virtude, dão sentido e importância às nossas vidas.
O que importa verdadeiramente é sermos fiéis a nós mesmos… assim penso… aonde quer que isso nos leve… a importância em reconhecer, nos prazeres pequenos da vida… em cada momento… em cada dia… e no outro a seguir… e só nesse… apenas o dia de hoje… um dia de cada vez.
Podemos ser felizes ao domingo mesmo tendo de pagar contas na segunda… assim quero.
 

Que havemos de esperar, Marília bela?
que vão passando os florescentes dias?
As glórias que vêm tarde já vêm frias,
e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
aproveite o tempo, antes que faça
o estrago de roubar ao corpo as forças,
e ao semblante a graça!
Tomas Antonio Gonzaga
Sofremos a aflição do que ainda não aconteceu… do amanha… e do depois… e do depois de amanhã… assim vejo, que o céu transborda de almas que tinham feito planos para um dia… que nunca viveram.
“passado é história, água corrida que não volta. Futuro é hipótese, probabilidade apenas, incerteza e risco, impalpável demais para ser levada tão a sério. Se tiver de viver, que seja agora”
 
Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã
Não perguntes, saber é proibido, o fim que os deuses
darão a mim ou a você, Leuconoe, com os adivinhos da Babilônia não brinque.
É melhor apenas lidar com o que se cruza no seu caminho
Se muitos invernos Jupiter te dará ou se este é o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar Tirreno: seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo reescale as suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Carpe Diem, confia o mínimo no amanhã.
Quintus Horatius Flaccus  (62 a.c)
… ouço Horatius, que perscrutou uma verdade profunda… de Eclesistes ou Salomão uns seculos antes… revejo semelhanças com outros… dois milenios atrás… e traduzo numa norma simples… visto por alguns… que admiro… á minha maneira…

   

Não estejais apreensivos pela vossa vida, sobre o que comereis, nem pelo corpo, sobre o que vestireis.

Mais é a vida do que o sustento, e o corpo mais do que as vestes…

… Qual de vós poderá, com as suas preocupações, acrescentar uma única hora ao curso da sua vida?

Pois, se nem ainda podeis as coisas mínimas, por que estais ansiosos pelas outras?

Considerai os lírios, como eles crescem; não trabalham, nem fiam; e digo-vos que nem ainda Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um deles…

… não andeis inquietos. … vosso Pai sabe do que precisais. (Jesus)


3 comentários:

Anónimo disse...

Épá podes querer ensinar, e até que levas jeito, mas esse texto deprime quem nota aqui que está mal de ideias - TODOS NÓS!!!

Ou não?

Parabéns por essa reflexão tão bem escrita. Bateu.

email disse...

Pois é caro Júlio... há dias assim... a ideia 'carpe diem' é mais antiga do que eu imaginava... uns 3000 anos... e curiosamente partilhada por pessoas importantes ao longo da história... sem que nunca me tivesse apercebido...

Mas pronto... as primeiras semanas após regresso de portugal, da-me para estas coisas... nada que uma boa pescaria nao modifique eheh...

Abraço...

Anónimo disse...

Mano, esta " bateu" fundo mesmo!Não que me surpreendesses,tu sabes pensar.Eu gosto tanto de pensar contigo...Obrigada...Beijinho.