quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Escutar ou não escutar, eis a questão

 - Escutar ou não escutar, eis a questão -


Discussões antigas e acesas acerca do sexo dos anjos ou aquel'outras acerca de quantos anjos podem dançar na cabeça dum alfinete suscitaram no Braveheart uma outra que teve comigo. 


Tem ela a ver com a hipótese dos Santos, Apóstolos, Nossa Senhora e demais hierarquias celestiais poderem ou não perscrutar os nossos pensamentos quando a eles nos dirigimos em preces ou veneração.


Aquela antiga discussão de retórica filosófico-religiosa onde se degladiavam argumentos acerca de "quantos anjos podem dançar na cabeça dum alfinete" é bem conhecida. Uma discussão estéril porém, mas acesa, que pretendia responder a outras questões entre as quais indagar acerca da substância dos anjos. 


A minha discussão com o Braveheart é outra, intestinalmente acesa, mas não necessariamente estéril.


Resume-se a isto:


Afinal de contas, quando rezamos a um santo ou santa, anjo ou anja - aqui o Braveheart tentou reiniciar a outra discussão acerca do sexo dos anjos - Nossa Senhora ou outra hierarquia qualquer, podemos fazê-lo em pensamento ou temos mesmo de fazê-lo em viva voz?


Isto parece não ter importância alguma, contudo caí na asneira de dizer que, quando o fazia, quando rezava fazia-o sempre em completo silêncio. 


Quer dizer, rezava e pedia-lhes ajuda  sem usar da palavra. Tão somente o pensamento dirigido ao santo escolhido (Santo Ovídio, o intenso zumbido que tenho continua de vento em popa, não se esqueça se faz favor, rogo, quando vossa santidade for a despacho com o Altíssimo de levar um post it que seja ou mero rodapé na lista).


Braveheart- Não penses nisso pá. Quem pede em silêncio só pode ser escutado pelo omnisciente Deus todo poderoso. Nunca pelas hierarquias inferiores porque estes não têm essa qualidade da omnisciência que é reconhecidamente um exclusivo Dele. Está escrito no Livro Sagrado pá. Portanto se queres ser escutado pelos santos tens mesmo de botar faladura e até deves exagerar um bocadinho como quando se vai às urgências dos hospitais a ver se sai uma pulseira com uma cor prioritária).


Ricardo - És um bocado bruto. Mas não poderia Deus concessionar essa possibilidade nas santidades?


Braveheart - Claro que não. Os atributos Dele são só Dele e não os concessiona a ninguém. 


Ricardo - hummm, como são escutados os mudos se não conseguem falar em viva voz com os Santos?


Braveheart- É mais do evidente que quando rezas ou queres ajuda aos santos e à Nossa Senhora ou anjos, tens de o fazer em voz viva.  Caso contrário Eles, lá de cima, só te vêm a gesticular à toa umas cenas a ver se percebem o que queres pela expressão facial, já que não abres a matraca.


Ricardo - Mas, vamos lá ver, talvez possa haver para esses mudos uma excepção. Afinal de contas Deus também é omnipotente e pode muito bem conferir uma excepção para os mudos se fazerem ouvir sem falar.


Braveheart- podes imaginar o que entenderes, até és tão bom nisso como eu mas, epá não pode ser. Garanto-te. Olha o teu exemplo. Quantas vezes te concederam o que lhes pediste?


Ricardo- Nunca fui muito de pedir e rezar mas, por acaso, lembro-me quando era rapaz pedia sempre três coisas quando ia à missa todos os dominguinhos.


Braveheart- o que pedias tu em silêncio às santidades?


Ricardo - mundo sem guerras, saúde para o meu pai que estava doente e uma outra coisa que me aprazia naquele momento. Por exemplo uma mota, um skate, melhores notas na escola ou outras cenas que reservo só para mim.


Braveheart- logo na primeira parecias uma daquelas candidatas a miss USA: Peace on Earth. Mas desses três pedidos que taxa de aprovação tiveste?


Ricardo - uma.


Braveheart- aprovaram um pedido portanto. E podes dizer qual deles foi?


Ricardo - posso, era sempre o terceiro, que era um conjunto alargado de coisas, o skate, a mota suzuki, melhores notas na escola a português e a francês, uma raquete de tenis etc. 


Braveheart - Portanto, tudo aquilo que podia depender da ajuda dos Santos não tiveste. Mas tiveste o que dependia de ti ou dos teus pais. Aí está a prova. Tu pedias em silêncio mas Eles não te ouviam. Experimenta fazer-te ouvir à seria. Com respeito, mas com firmeza e confiança. Em viva voz. Bota-Lhes nas bentas o que te vem das entranhas.


Ricardo - Achas que dessa forma sou atendido?


Braveheart - Claro que sim. Só não és atendido naquilo que pedes e que entra em conflito com a moral divina ou com os planos do Altíssimo ou mesmo em conflito com pedidos de terceiros. 


Ricardo - Pois, é o caraças, quase tudo entra em conflito com tudo.


Braveheart-  epá, não podes pedir para o FC Porto ser sempre campeão. A lagartagem também tem os seus crentes e devotos a pedir. Por isso, pedidos para paz no mundo é pedido escusado, FC Porto sempre campeão também. Sabes lá se a guerra nao será o mal melhor para a melhor solução de paz.


Ricardo - És capaz de ter razão.


Braveheart- o essencial é fazê-lo falando com eles. 


Ricardo - olha lá e se em vez de pedir aos santos e demais hierarquias ultrapassar os intermediários celestiais todos e dirigir-me diretamente a Deus em pensamentos.


Braveheart - sim, a única forma que tens de falar com uma entidade celestial por pensamento é apenas com Deus. Nem o diabo sabe aquilo que pensas, embora tenha astúcia bastante para fazer boas estimativas acerca daquilo que pensas porque é fino como um alho. Mas não sabe de facto aquilo que pensas, por essa razão perdeu a aposta com Deus quando estimou mal a lealdade extrema de Jó a Deus.


Ricardo - então, quer dizer, posso falar em pensamento diretamente ao Deus que ele escuta, embora ponha de lado preces ou pedidos conflituantes ou incompatíveis com os Seus planos. Se pretender alvíssaras das santidades devo conversar em viva voz e eles depois intercedem junto do Altíssimo, se acharem que vale a pena depositar confiança em mim.


Braveheart - sim, é isso. Preces em pensamento só dirigidas a Deus. Se  pretenderes um intermediário as preces devem ser faladas.


Ricardo - então, quer dizer, os mudos não podem rezar em pensamentos aos santos?


Braveheart - podem, mas não são escutados. Tal como o diabo não te pode ouvir os pensamentos, os anjos em geral e as santidades também não. Acontece porém que esse Pessoal tem outros dons. Uma acuidade e sensibilidade que, não escutando, intuem com divinal competência.


Ricardo - percebo isso mas, vejamos noutra perspetiva. E se em vez das preces em pensamento ou em viva voz, o fizéssemos escrevendo. Achas que eles 'escutariam' o que foi escrito.


Braveheart- mil cara... me...


Ricardo - olha a linguagem.


Braveheart - ..odam... mas quem é aqui o Braveheart afinal de contas? Isso era suposto ser eu a ter essa ideia.


Ricardo - ah, tão cheio de sabedoria e não tens resposta para esta. Toma lá e embrulha.


Braveheart- claro que tenho.


Ricardo - tens?


Braveheart - só estava a ver até onde ia a tua ignorância. Superou as minhas expectativas. Nunca leste que tudo começou com o Verbo?


Ricardo - sim.


Braveheart - Pois é através do verbo que melhor podes aspirar a ser atendido. Desde que saibas escrever, claro. Ou através doutras modalidades como a música, a pintura e as outras formas de expressão da alma.


Ricardo - Não queria fazer o teu papel, mas tenho outra dúvida que me veio agora mesmo à cabeça. Nas artes eu compreendo que as santidades possam compreender porque a expressão artística não tem língua. Contudo a escrita tem um idioma. Em que idioma me dirigiria a eles?


Braveheart- epá eu só te aturo essas bacoradas porque partilhamos o mesmo corpo senão...


Ricardo - mas eles entendem todas as línguas ou idiomas? 


Braveheart - pá, da mesma forma como rezas em português, escreves em português. Os idiomas foram um castigo de Deus para suster os ímpetos humanos de sonhar serem como Ele. Lembras -te da estória da Torre de Babel? Foi aí que tudo começou. Deus baralhou os construtores usando um artifício simples para eles não se entenderem. Pôs os engenheiros a falar mandarim com os arquitetos que só percebiam espanhol e aos trolhas pô-los a falar francês a uns, aramaico a outros e por aí em diante. A obra parou porque ninguém se entendia. A hora da bejeca para uns era entendida por outros com sendo para pintar de beje en francais.


Ricardo - ah e então?


Braveheart - então é isso. Quando ascendes aos céus, quer dizer, quando vais desta para melhor, quando bates a bota todos os idiomas são resumidos a um só.


Ricardo - as coisas que tu sabes.


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O quinto dos internos

 - o quinto dos infernos -


- Alô primo, vi que me enviaste mil e quatrocentas mensagens e cinco mil trezentos e doze tentativas de contacto e deixaste centenas de lembretes no...

- ahhh peter!?, epá, desisti. Se queres saber, já nem falo mais contigo.

- deixa lá isso richard, não amues, estive ocupado noutras cenas e não podia aceder a nossa plataforma de comunicação. But, here I am, again and again and again and again...

- hey pára aí, parece que estavas a entoar  a musica The Forest dos The Cure... 

- ... e estava mesmo, estava à espera que fizesses o bass guitar que se seguia, como sempre fazíamos.

- bem, não mudes de assunto Peter, vieste a tempo porque eu ia mesmo desancarte num post, a torto e a direito, com as palavras mais rudes que conheço no dia 10 em que fazias 54 anos de vida e...

- mas já cá estou... and again and again

- ... e revelar as nossas peripécias dos diabos menos conhecidas.

- calma richard, não é preciso chegar a esse ponto.

- então vê lá se não te baldas e arranja forma de manter o diálogo, qualquer que seja a galáxia que estejas.

- senão o quê?

- não me provoques, olha que eu digo aquelas cenas no parque de campismo e aquelas na praia de nudistas em... para não falar nas cenas do sul de Espanha que...

- ahh não, ok, prometo. Mas diz-me lá, richard, tens andado bem?

- define a palavra "bem".

- se estás fixe, se a vida corre pelo...

- já estive melhor e pior, mas não me posso queixar. Envio-te tudo agora por mensagem privada. 

- olha, já recebi. 

- percebes agora pedrinho?

- percebo, mas tens de ter paciência e...

- falar aí do alto do paraíso é fácil. Devias era meter uma cunha aí ao pessoal das esferas mais elevadas e...

- oh

- olha lá, peter, como andam os nossos que estão por aí?

- o teu pai e o meu parece que voltaram à adolescência. Organizaram um rendez vouz em modo de representação teatral, como fizeram na adolescência, aberto a todas as almas onde participaram como actores eles próprios, os teus dois pequenos e demais família e eu próprio, claro.

- uma peça de teatro mesmo?

- yá, um peça complexa de teatro que o meu pai escreveu claro e o teu pai imaginou. Até se zangaram por causa disso. Sabes como eles são, não é? Por essa razão é que andei ocupado. 

- e que papel fazias tu nessa peça? Como se chama a peça?

- bom, o nome da peça de teatro é "o quinto dos infernos".

- nome apelativo, deve ter sido ideia do meu pai.

- não, por acaso o nome foi sugerido por mim.

- ah valente primo. O nome é porreiro, mas qual era o teu papel?

- bom eu fazia o papel principal de ... zzzzzzzzzz...

-Tou, peter. tou tou. Ora bolas. Perdi a ligação.

- ... zzzzz príncipe zzzzz e o teu filho advogado da zzzzz mas depois o teu pai impunha a espada com zzzzzzzzzzz

- Catano, mil catanas me cortem, não percebi... tou tou

- zzzzzzzzzzzzzzzzzzz

- queres ver que o apagão do Facebook também chegou à plataforma celestial. Fazes me falta pá , sinto saudade. E gostava mesmo de ti. À seria. Se me falhas por este meio é mesmo o quinto dos infernos.

- ouvi tudo. És um bocado lamechas.

- meu grande... fizeste de propósito.

- yá, estava a brincar contigo.

- que brincadeira palerma.

- é palerma mas foi necessária.

- como assim peter?

- porque tu és um cabrãozito que não consegue dizer o que sente directamente.

- apanhaste-me bem. Mas voltando atrás, que papel fazias tu na tal peça de teatro?

- não te posso dizer essas coisas. Já sabes. Um dia vens para cá e sentes por ti próprio.

- pena

- mas olha lá richard e os teus, como vão as coisas com eles?

- vão bem. Olha, a minha maggy já é mestra engenheira dessas coisas dos computadores e sistemas de informação. E até arranjou um emprego no Porto numa multinacional japonesa potente. E o marocas passou de besta a  bestial na matemática, com a nota máxima e tudo. Eu já estava para o aconselhar a ir para as artes por causa das notas menos boas a matemática mas o rapaz num ano transformou-se e passou do 8 para o 80. Também quer ser engenheiro de uma cena qualquer por definir.

- fixe, aconselha-o a ir para engenharia quantum biocelular.

- o que é isso?

- é uma cena que vocês vão inventar a dez anos de vista para se transportarem instantaneamente. 

- isso parece cenas do star trek do teletransporte oh peter mas, na verdade, vendo bem, os qubits já estão aí a moverem-se instantaneamente.

- yá. Olha, tenho de ir, estão ali todos a mandar abraços para o pessoal aí em baixo.

- um abraço para eles também e um especial para ti que farias anos de vida se não te tivesses 'teletransportado'.

- isto não foi um teletransporte seu nabo. Isto foi uma ascensão.

- vai dar ao mesmo, basaste duma forma ou de outra.

- sim, mas no teletransporte podemos regressar e na ascensão só há uma via.

- então, mas afinal não há por aqui almas ou espíritos como vemos nos filmes? 

- há, mas são os que não ascenderam. 

- um gajo pode escolher não ascender?

- não te posso dizer, já sabes. Não é propriamente uma escolha. Fico-me por aqui.

- sempre o mesmo.

Em nome do Pai

 - Em nome do Pai...-


Olhando pelo retrovisor, em retrospectiva, várias foram as vezes que, por impulso, maltratei o meu Pai em palavras, mais ou menos violentas, dependendo do assunto pendente. Dizem que é mais grave do que o pecado da murmuração que, per si, já seria digno de castigo eterno e 'ranger de dentes'.


Chamar nomes à mãe Dele não foi o pior, garanto-vos. Mas não deixa de ser anedótico, agora visto à distância, destratar a mãe d'Alguém que não foi criado, nem gerado... nem parido.


A minha falta de julgamento e inteligência leva-me a estas situações. Se acontece algo de mal na vida,  o Cabrão que  não ajudou e calou-se com irritante persistência levou sistematicamente com as culpas. Por omissão. Má vontade.


Tenho-O em boa conta e, nesses períodos conturbados, esperaria um braço amigo.


Não só não mo estendia como renovava as malfeitorias com mestria e assiduidade de um relógio suíço. Renovava-Lhe os votos, incrementando o tom e a virulência dos ataques ao Seu bom nome.


Recentemente tudo mudou. 


Percebi que a percepção que eu tenho da realidade é diferente da própria realidade. Aquilo que eu esperaria que não acontecesse não se conformava com a verdade e, portanto, se Ele tivesse correspondido aos anseios que eu clamava, estaria Ele a cometer um erro. E Deus não os comete.


O que tenho eu a oferecer-Te que Tu não tenhas?


Podia oferecer-Te a minha alma mas isso seria apenas uma intenção inconsequente, já que nem sei como isso se faz. Mais a mais, não a tens porque não a queres. Até ver. E mesmo quando a reclamares, e eu sei que a vais reclamar, eu não sou tido nem achado nessa decisão. Por isso não Te posso oferecer o que de mim não depende.


Podia oferecer-Te dedicação e muitos pais nossos e avés marias mas não gosto dar graxa, muito menos de repetir entoações sem pensar nelas.


Podia oferecer-Te em exemplo de pessoa justa e correta, abdicando de todos os vícios que me perseguem e defeitos que me assaltam, a começar por poder ser um bom pai, um bom marido, um bom filho. 


Se Tu não foste bom Pai para mim porque raios haveria eu de conseguir sê-lo? A menos que o julgamento que fiz de Ti esteja equivocado.


Talvez sejas bom afinal de contas e a percepção que fiz de Ti errada. Os sentidos e a lógica limitada podem estar a fazer-me concluir uma coisa e ela ser exactamente o oposto. 


Não foste Tu que disseste que no sonho daquele desesperado as duas pegadas na areia que subsistiam eram as Tuas que levava o desesperado ao colo?


Não foste Tu que disseste que escreves certo por linhas tortas?


É a esperança que me dás. Estares a fazer o que é certo e bom para mim sem eu conseguir alcançar o efeito.


Mas admito essa possibilidade, agora. Aliás, não só admito como começo a ver-lhe a forma. E até , se queres que Te diga, começo a perceber o quão equivocado estive durante estes anos todos. 


Começo, em boa verdade, a perceber que ainda vou a tempo de renascer na Verdade. Pior seria se me deixasses emerso na mentira até velhinho, corcumido, infezado, num meio hipócrita.


Creio já ter aprendido a lição, oh Pai. Se a aprendi mal ou bem, não sei, não sou capaz de discernir mas, para todos os efeitos legais, Tu é que foste o professor.


Podes enviar já um raio que me parta, mas isso não faz o teu gênero. Habituei-me às tuas subtilezas e à Tua forma de proceder para me ensinar. Sempre pelo caminho mais difícil, parece claro, mas cá estarei para enfrentar o que quer que seja que nele encontre.


Deves saber que as verdades que Te digo são sentidas e genuínas. Podias escolher vias menos difíceis para me ensinar, mas deixo isso a Teu critério. Olha, pelo menos podias começar por facilitar um bocado nos efeitos secundários dos medicamentos que às vezes tenho de tomar para esta ou aquela maleita. Se a bula diz que a probabilidade deste ou daquele medicamento causar o sintoma x é muito rara, ao ponto de só admitirem 0,001% de casos, podias fazer com que eu não caísse nessa percentagem. 


Não é por nada mas, Ouve, eu já nem leio os efeitos secundários normais. Nem na aspirina. Passo logo a ler os muito raros que estão normalmente no fim da bula.


 E isso, como deves compreender, é cansativo. Queria poder ter os efeitos secundários normais em toda a sua potência e majestade.


Pelo menos, olha Pai, quando mudar da fila de trânsito parada da esquerda para a direita que está a correr melhor, não ponhas a primeira a andar mais rápido. Dá a ideia que fazes de propósito.


Mas se tiver de ser, que seja feita a Tua vontade.


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Perfilam-se alguns candidatos

 - perfilam-se alguns candidatos-


Deus - Então, Braveheart, vens de auréola murcha. Como se alguma desolação ou triste espectáculo te atormentasse...


Braveheart- É verdade Senhor. Venho da Terra, de Glasgow onde...


Deus - Os malucos da galáxia... Humm, que houve agora? O que é que aprontaram esses malandros desta vez? 


 Braveheart- Senhor, é o seguinte: Os gelos nos polos vão derretendo mais do que acumularam no inverno anterior, o nível dos mares sobe paulatinamente, os tigres e demais predadores estão a ser empurrados para áreas ínfimas e começam a ter poucas presas, os elefantes e os rinocerontes estão em declínio magistral, os ventos sopram disconformente, as correntes marítimas que contribuem para um certo clima estão a mudar, o mar está mais sujo que uma pocilga, o ar poluído e as asmas a subir vigorosamente, as árvores das florestas primárias são abatidas a um ritmo alucinante.... Em resumo: está tudo a caminhar para as trevas escuras.


Deus - Belo. E a que se deve tamanha monstruosidade geral das actividades?


Braveheart- estou indeciso, confesso. Desconfio que a estupidez humana concorre com a Tua generosa ideia quando disseste: crescei e multiplicai-vos.


Deus- estás a deitar as culpas para mim seu...


Braveheart- não, nada disso. Longe de mim atribuir-Te culpas pela nossa exuberância. Larga lá o Raio da Morte que me meter pavor. Mas hás-de convir que essa Tua ideia de dizer "crescei e multiplicai-vos" não ajuda lá muito às emergência climática. Quer dizer, havendo gente a mais na Terra torna-se difícil dizer aos mais pobres países para não poluir e aos mais ricos para reduzir a actividades. Para alimentar este exército de seres humanos, para lhes proporcionar confortos vários é preciso poluir cada vez mais ou exaurir os recursos naturais.


Deus- para Mim isso é pacífico. Depois da vida vem a morte e depois desta o renascimento. As coisas seguem o seu curso natural num ciclo milenar de vida e morte. Um dia porvir haverá extinção em massa como em diversos períodos da pre história e depois virão outros diferentes. Lembra-te dos dinossauros e do dilúvio...


Braveheart- com todo o respeito, falar Contigo é desconcertante. Arranjas sempre uma racionalidade para me atirar às ventas, típica, aliás, em ti. Mas não achas que por sermos especiais para ti, podíamos ser agraciados pela tua mão amiga e...


Deus- em cada época tenho seres especiais. Já foram especiais as anémonas, as estrelas do mar, as lulas, os dinossauros... e no presente são vocês, os humanos.


Braveheart- tens alguma ideia de quem vao ser os teus amigos especiais depois da extinção humana?


Deus- perfilam-se alguns candidatos...


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Carta aberta ao Criador

 (Braveheart), da cabana das ferramentas


-Carta ao Criador-


Meu Deus,


Tranquiliza-Te. Desta vez, não venho aborrecer-Te com sugestões urgentes, como a de exterminares uma série de hipócritas por quem nutro profunda antipatia, nem fazeres crescer orelhas de burro nuns quantos que por cá pupulam que fazem da injúria e difamação o modo de lhes animar o vazio da alma. Já percebi que, de momento, não estás pr’aí virado, portanto, não insisto. Tenho pena, muita mesmo, mas não insisto. 


Mas sempre Te digo, em relação aos segundos, já que lhes distribuiste espíritos de asno, não custava nada facilitares também as orelhas. Sendo cretinos, ao menos tornavam-se pitorescos e o pagode ria. Enfim, lá deves ter as Tuas razões, certamente inefáveis e transcendentes. Curvo-me diante delas.


Também não venho incomodar-Te com requerimentos intermináveis de perdão para os meus pecados que, como bem sabes, não só não diminuem, como, com a idade, vão de vento em popa e virtualmente versam sobremaneira sobre aquele bizarríssimo mandamento com que protegeste a mulher do alheio, segundo os hebreus. 


Senhor, é mais forte do que nós: antes ser amante da mulher do alheio que amigo do alheio. Hás-de fazer-me a justiça que é um mal que faria para evitar um mal maior e que espero me seja contabilizado como atenuante por alturas do Juízo Final. 


Além do mais, como o burguês prefere ser cornudo a ser pobre, em nada contendo com a santa paz da Criação e das criaturas. Tenta compreender: enquanto nos entreteriamos com a mulher dele, não cobiçariamos a santa propriedade.


 Bem sabes, Tu que sabes tudo, como é essencial para a boa harmonia das coisas que o macho vigoroso se liberte regularmente da bicharada que lhe fervilha no pomar. Foste Tu que o criáste assim, Excelência.


 Encurralá-los, aos tais, nessa prisão claustrofóbica acarreta impreterivelmente maus humores e violentas tendências, como rugir impropérios e escaqueirar coisas.


Em suma: o sujeito perde de todo o bom feitio e torna-se religioso ou coisa pior. Ora eu, perdoar-me-ás a singularidade, prefiro ser um humilde pecador, a andar pelo mundo em certas figuras. Mas isto, ó Altíssimo, que fique aqui, hermético, entre nós. Não vá algum Espírito Santo de orelha dar com a língua nos dentes à Senhora Braveheart e, a seguir ao Carmo, cai a Trindade. Livra-Te, pois, a Ti, ó Pai Celeste, dessa queda desnecessária e a mim, criatura virtual, desse apocalipse fraticida com a minha alma gémea.


Tão pouco –alegra-Te – venho hoje molestar-te com recomendações prementes para que leves para junto de Ti –e parqueies nesse condómino ardente que tens na cave–, a corja de políticos que infesta a Terra e, sobretudo, aqui na lusa pátria. Já me descabelei o suficiente a tentar expôr-Te o meu ponto de vista sobre a prioridade desse assunto e acredito que ruminas e deliberas, em solene retiro, sobre a bondade dos meus argumentos.


Não, ó Transcendência, o que aqui me traz, nesta hora de assombro, é apenas uma pequeníssima e mirradíssima questão -uma questiúncula, melhor dizendo- enfim, uma borbulha do pensamento que, em teimosa comichão, pr’àqui me atormenta. Consiste essa verruga no seguinte: após elequentes colóquios e exaustivos seminários Contigo, a muito custo, fruto de muita oração e - porque não dizê-lo- flagelação dos instintos (sobretudo homicidas, mas não apenas), lá consegui perceber alguns pormenores mais nebulosos da Tua Criação.


 Sendo Tu absolutamente Bom, ela só podia ser absolutamente Boa, o que transposto para certa casta de dejectos, excrementos, maleitas, bactérias, vírus, répteis venenosos, insectos peçonhentos, vermes rastejantes, lombrigas, ténias, vampiros, etc, etc, me transportava a confusa estupefacção e estranheza. Era a estúpida da Razão a meter o bedelho onde não era chamada. Identificada essa disfunção da minha estrutura mental, lá consegui, com a Tua preciosa ajuda, superar o meu cepticismo e ascender a uma clarividência mais benévola e compreensiva do verdadeiro fundamento e finalidade das coisas.


Com grande surpresa minha, apaziguei o meu espírito com todas essas existências nauseabundas e repugnantes. Começei a ver com outros olhos os vermes, os micróbios, as formigas, as ratazanas, certos batráquios, as hienas, os monstros alienígenas... o Passos Coelho, o José Sócrates, o Vitorino, o Vitalino Canas, até o Ventura, imagina! E até os chineses, pasma! Grande poder Miraculoso, o Teu! 


E que esforço sobrehumano, o meu! Mas –eis a nanoquestão, Senhor -, mesmo com todo o teu Poder Miraculoso, mesmo com toda a minha titânica fibra, resta ainda uma cabra duma minudência que infecta e conspurca o Teu universo mais que perfeito: é o Paulo Rangel, ó meu Deus! e aquele puto anormal Francisco Não-sei-Quantos que parece ter brotado por partogénese anal do primeiro!... Para que é que aquilo serve?...


Aguardo a Tua sobredouta resposta em perturbada angústia.


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Ensaio sobre o Instinto, parte I

 -Ensaio sobre o instinto-


Ricardo (Rb) - olha lá, estava aqui a observar esta mãe galinha, que passou trinta longos dias, non stop, aninhada sobre ovos para os chocar e agora observo a forma como ela protege, sob as suas asas, os seus pintinhos, atentissima aos predadores e compenetrada a ensinar-lhes como se esgravata a terra.

Braveheart (BH)- são instintos


Rb- o engraçado disto é que os outros pintos mais velhos que ela também chocou parece já nem saber quem são.

BH- Memória de curto prazo. 


Rb- pois, serão instintos. Instinto de proteção, procriação...

BH- ... entre outros como a autopreservação. 


Rb- dá a ideia que lhes foi inculcado um software à nascença que corre em situações perfeitamente previsíveis. Quer dizer, quando é activado um estímulo específico o software responde. No caso das galinhas o software parece correr em segundo plano e depositado numa espécie de memoria RAM. Desligadas as situações que fizeram actuar o software, a memória perde--se. Eles não têm memória ROM?

BH- Nao. A memória é função da capacidade cerebral. Sendo pequeno o cérebro, este vai rejeitando informações supérfluas para se concentrar nas essenciais. Mas, estás a querer dizer que são comportamentos irracionais. Que não dependem da razão, mas sim do cumprimento das diretrizes programada, não é assim?


Rb- pois, assim é. Não diria irracionais, mas sim inconscientes.

BH- estou a sentir que está a subir por essa cabeça mais outra estarolice retórica temática...


Rb- ahh sim. Epá, estava a pensar no 'ensaio sobre a cegueira' de Saramago e, de repente, veio-me à cachola a hipótese de, tal como na obra do escritor, aparecer por aí um vírus que, por e simplesmente, cancelasse todos os instintos dos animais e das pessoas ao invés de as por cegas.

BH- ahhh?


Rb- sim, como seriam as coisas se, um a um, a bicharada e as pessoas deixassem de ter Instintos?

BH- bem, para início de conversa, a galinha deixava de chocar os ovos. Os passarinhos de fazer ninhos... o factor reprodução das espécies deixava de ser algo  instintivo, e passava a ser fruto do acaso, ou da vontade própria no caso dos animais mais racionais.


Rb- transpondo os instintos para o ser humano...

BH- seria coisa semelhante. O cérebro toma quase sempre decisões antes da consciência. Em quase todas as vertentes. Às vezes não parece porque a decisão ocorre a fracções de segundo da consciência e dá a ideia de que tomaste uma decisão consciente mas, na verdade, está provado que o cérebro decidiu antes de termos consiciencia dos factos.


Rb- mas eu estava a falar de instintos e não de determinismo.

BH- tá, eu sei. O ponto é que sem instintos a vida não existia. Como bem disseste, as galinhas não chocavam os ovos logo...


Rb- mas a vida encontra sempre um caminho alternativo. Quer dizer, as galinhas podiam não chocar os ovos mas, em qualquer ponto do planeta, eles encontrariam a temperatura certa para eclodir.

BH- certo, mas isso depende dos mesmos estarem fecundados ou não. Se o galo não tivesse o instinto de galar todo o harém, não havia vida nos ovos, por mais chocadeiras ambientais óptimas que houvessem.


Rb- então, e como explicas que a tartaruga enterre a boa profundidade os seus ovos e os abandone?

BH- é outra espécie, que requer outra temperatura. Mas estavam fecundados por um macho.


Rb- e como explicas que mal eclodem as tartaruguinhas desatem a correr desvairadas para o mar?

BH- é instinto. Elas não correm para outro lado que não seja de encontro ao mar. A programação efetuada foi essa: follow the sea


Rb- pois era aí que queria chegar. Parece que finalmente percebeste. Imagina então que todos os animais e pessoas perdiam esses instintos. 


BH- era o fim do mundo.


Rb- estás a esquivar-te à hipótese. Então e se, de repente, fossemos desprogramados dos instintos?


BH- mas isso já acontece, embora com menos ocorrências. A natureza já produz seres desprovidos dalguns instintos. Há mulheres que não querem ser mães e quando são rejeitam os bebés, homens que não querem ser pais, há pessoas que se suicidam contra o instinto de autopreservação etc


Rb- todos pá. Cancelar todos os instintos, não apenas os que não contendem com opções individuais. Todos, excepto aqueles perfeitamente incontroláveis do nosso corpo como piscar os olhos, respirar etc. 


BH- nesse caso, se os instintos fossem anulados para todas as criaturas, as características de cada espécie seriam também anuladas. 


Rb- Nesse ambiente, ao contrário da estória do Saramago nos "ensaios sobre a cegueira" onde os instintos se sobrepuseram à razão e à dignidade humana, no meu ensaio queria perceber o cenário da ascensão duma doença que, em vez de tornar cegas as pessoas, as desprovesse de instintos.


BH- hummm Saramago não se lembrou disso. Se se tivesse lembrado, o ensaio seria mais interessante. Estou para aqui a imaginar um mundo sem instintos e isto dá pano para mangas. Pena não escreveres bem, como ele.


Rb- podias dar uma ajuda, tu que não tens corpo e nem sabes bem (senão virtualmente) o que é ter, de facto, instintos.


BH- comecemos pelo princípio então. Imagina que é introduzido por acidente um vírus, manipulado nos laboratórios de pesquisa genética dos EUA, com capacidade de destruir a informação nas células memória que nos garantem os instintos. 


Rb- yá, isso, vamos por aí...

BH- vamos não. Vou. Tu ficas aí a ouvir. 


Rb- Deves saber que essa matéria foi alvo de muita dedicação de poderosas mentes como Nietzsche, Freud etc. 

BH- sei sei. O Freud chamava-lhe pulsões e o Nietzsche tem uma ideia que me parece muito próxima com a tua. 


Rb- mas eu ainda não te dei a minha opinião.

BH- pois não, mas eu sinto que és daqueles que acha que a domesticação excessiva e controlo de espécies está a alterar os instintos da bicharada.


Rb- por acaso acho mesmo. E até vou mais longe: o ser humano tem vindo a domesticar os próprios instintos duma forma demasiado acelerada, o que me aproxima da tese de Nietzsche de que o homem moderno vive em 'má consciência' reprimindo à bruta os seus instintos milenares.

BH- eu vi logo. Nem queres esperar que seja eu a fornecer os argumentos, não é? 

.


(continua)

Falsos homossexuais

 - Falsos homossexuais-


Braveheart-- oh Ricardo sabias que o Paulo Rangel disse que é homossexual?

Ricardo- pá, não sabia até o homem dizer que era. Cada um é aquilo que é. Ponto.


Braveheart- escuta, eu não pretendo discutir a orientação sexual mas, não achas que há falsos homossexuais?

Ricardo- falsos como?


Braveheart- epá, nota bem, nos homens heterossexuais não há pulsão de atracção sexual para com outros homens. A atração, toda a fantasia sexual dos homens heterossexuais, tem um destinatário que são as mulheres.

Ricardo- certo, e?


Braveheart- quer dizer, o homem comum ou padrão (heterossexual)  gosta de apreciar as mulheres em geral mas, volta e meia, há uma com a qual se apaixona e até com ela pode vir a casar. Esse homem padrão apaixona-se eventualmente por uma mulher específica...

Ricardo- é o amor.


Braveheart- ... mas, mesmo tendo um amor não deixa de, digamos, continuar com a pulsão pelo feminino. Se se divorciar ou ficar viúvo vai continuar com a pulsão para com o sexo oposto. 

Ricardo- certo.


Braveheart- os homens homossexuais também se apaixonam. Mas ainda não percebi bem se se trata dum amor pela pessoa, que por acaso é do mesmo sexo, ou se a pulsão pelo mesmo sexo continua se, por hipótese, o homem amado finar.

Ricardo- e ...


Braveheart- e fiquei a pensar que o facto dum tipo amar outro tipo não quer dizer que, na falta do seu amor, continue a ter uma pulsão por homens. São os falsos homossexuais que, na verdade, amam verdadeiramente uma pessoa independentemente do sexo da mesma.


Ricardo- estás a baralhar-me a cabeça.

Braveheart- epá, quando um dos elementos dum casal hetero morre, o viuvo ou viúva das duas uma: ou quer permanecer nesse estado pela vida toda ou, se não quer, em princípio, procurará outro parceiro de diferente sexo. Volta a casar ou assim. No caso dos casais homossexuais haverá uma certa percentagem com pulsão certa e definitiva por pessoas do mesmo sexo, aconteça o que acontecer mas, haverá uma boa parte que, na falta do seu amor, se apaixonem por outra pessoa de outro sexo. São estes últimos os falsos homossexuais.


Ricardo- então, mas isso também pode ocorrer doutro modo. Nessa linha podemos também inventar os falsos heterossexuais. Aqueles que tendo vivido e convivido sempre com uma pessoa de sexo diferente, chega a uma altura do campeonato e passa a jogar noutra equipa.

Braveheart- lá estás tu com as tuas manhas de retórica. 


Ricardo- mas não será assim?

Braveheart- Epá, esses teus truques irritam-me quase tanto como quando vou ver onde dá o jogo do FCporto para a liga dos campeões e constato que é no canal que não tenho. O que ocorre quase sempre, diga-se.


Ricardo- em que ficámos, então? Podemos concordar que, afinal tanto pode haver falsos homo como falsos hetero.

Braveheart- temo que tenha pensado nisto precipitadamente. Talvez o falso homossexual não seja uma espécie única do reino. Vejo agora, claramente, que também há falsos heterossexuais que podem reinar.


Ricardo- estou estupefacto contigo. Nunca pensei que desses o braço a torcer tão rapidamente.

Braveheart- é para veres, quando burilas um argumento irrefutável, não consigo rebater.


Ricardo- mas quê, achas que tu podias virar homossexual?

Braveheart- estás parvo pá?


Ricardo- pela conversa...

Braveheart- epá, nem pensar. Até te digo mais, tenho tanto nojo e asco pelos homens em geral que nem percebo como as mulheres podem gostar de nós. Se eu fosse mulher não gostava de homens. São feios, peludos, com sobrancelhas disconformes, com formas desagradáveis etc.


Ricardo- estás a admitir então que, se fosses mulher, eras homossexual, lésbica.

Braveheart- mil car.... são cenas distintas. Uma coisa é o eu homem real não vislumbrar a hipótese do eu mulher virtual se apaixonar por um homem, outra coisa é a suposição do eu mulher.


Ricardo- estás baralhado.

Braveheart- não estou nada. Tu é que encaminhas o meu pensamento mas, aquilo que eu queria dizer é, afinal, outra coisa.


Ricardo- qual coisa? Queres salvar a pele com outro argumento, não é?

Braveheart- Sim, repara, há falsos homossexuais porque há uma certa organização de interesses grupais que onde é preciso estar para subir na vida.


Ricardo- bom esforço. O que queres dizer é que há gente a fingir que é homossexual para poder aceder a certos cargos por simpatia sexual de grupo ou de lobbies dos seus dirigentes?

Braveheart- yá, é isso. Estás a ver, não achas que um tipo que se mostre homossexual pode muito mais facilmente cair nas boas graças do, por exemplo, Paulo Rangel ou doutros em lugar de destaque?


Ricardo- irmãos de luta. Brothers in arms. Talvez assim seja, infelizmente. Há uma certa dose de prostituição de colarinho branco na sociedade. E isso ocorre sempre em grupos de interesses, de facto. Até tu, portista dos sete costados, eras menino para fingir ser do Benfica se a promoção ou negócio estivesse ali ao virar da esquina do tasco cujo presidente era adepto ferrenho do Benfica.

Braveheart- também não exageremos. Nunca chegaria a esse ponto. Seria mais fácil, vê lá tu, virar gay, do que engolir benfiquismo por interesse comercial.


Ricardo- hummmm

Braveheart- quer dizer, não admito essa hipótese, embora já tenha trabalhado num clube de futebol como diretor financeiro, tendo na altura mais simpatia desportiva pelo seu principal rival. Mas, enfim, nenhum deles era o meu clube. Para além de que um profissional não mistura cores de futebol com o desempenho profissional. Excepto no caso do Benfica. 


Ricardo- ... e no caso dos lobbies gay.

Braveheart- certo, há certas linhas vermelhas, não é?


Ricardo- não sei, há?

Braveheart- a conversa contigo hoje está a pôr-me desconfortável.


Ricardo- também não estás nos teus melhores dias. 


.

Monogamia

 -Monogamia-


Braveheart- Estava aqui a pensar com os meus botões. 

Ricardo- sim, e o que te disseram eles?


Braveheart- Não me disseram, eu é que, olhando para a natureza, a bicheza em geral, fiquei a matutar em que altura o Homem se tornou monogâmico.

Ricardo- creio que foi sempre, não foi?


Braveheart- Pois, não. 

Ricardo- Não? 


Braveheart- Na verdade o Homem tornou-se monogâmico com o advento da agricultura propriamente dita, aquela trabalhada sobre uma propriedade.

Ricardo- então, mas antes do sedentarismo que levou o Homem a produzir na terra o pessoal não era monogâmico?


Braveheart- Não. O pessoal tornou-se monogâmico como resultado da agricultura e da propriedade. Para a trabalhar era necessário protegê-la e criar condições de habitabilidade, bem como estabelecer ritmos de alimentação regulares.

Ricardo- como assim?


Braveheart- vê bem, a partir do momento que tomavam conta duma propriedade, tinham de trabalha-la para que ela produzisse. Para isso tinham de ter filhos. Muitos. Quantos mais tivessem mais mão de obra terias para a manutenção da terra.

Ricardo- ahh então era por isso que tinham muitos filhos, às dúzias?


Braveheart- essa é a razão determinante, mas não é a única. Lembra-te que não havia meio de contracepção. Mas, na realidade quantos mais filhos tivessem mais prosperidade teriam.

Ricardo- pois, e então?


Braveheart- com terra a ser trabalhada pelo agregado familiar, a propriedade estabelecida, haveria de ter a certeza de que aquelas pessoas que lá trabalhavam e eram da família ficariam com os bens por herança no caso de morte dum dos progenitores e não que rumassem para outro melro qualquer. Por essa razão se procedeu à união em forma de casório, que é uma forma simbólica de dizer à comunidade que aquelas terras são da família e, também, de comprometer o agregado familiar à propriedade. Para que não restassem dúvidas os nubentes tinham de ser anilhados com uma aliança, para a freguesia ver. Na Índia não anilham mas pintam a testa.

Ricardo- então, eu pensava que isso ocorria porque duas pessoas se apaixonavam loucamente e queriam muito estar juntos.


Braveheart- não te concentres na árvore. Mira a floresta. É claro que há paixões e amor mas, na génese da monogamia está o interesse de propriedade.

Ricardo- caraças pá, só tu para me tirares a ideia dum mundo idílico onde prevalecem sempre os valores do amor e da paixão.


Braveheart- lamento. Não quer isso dizer que não casassem por amor e paixão. Na prática, na maior parte das vezes, os casamentos eram combinados por interesses. Os pais escolhiam os maridos das suas filhas através de acordos com os pais da contraparte. Nos casos comuns era do interesse daquele que produzia batatas juntar o seu filho com a filha daquele que produzia cabras. Nas esferas mais elevadas, na realeza, a coisa corria nos mesmos termos, mas a uma escala territorial mais abrangente e com interesses diplomáticos pelo meio. A maior parte dos casórios os nubentes nem se conheciam. 

Ricardo- horrível


Braveheart- não penses assim. As coisas eram assim porque não podia ser doutro modo.

Ricardo- então, mas não podia ser como hoje ocorre?


Braveheart- não. Não podia. Naqueles tempos não havia lugar para 'quereres'. A sobrevivência dependia dos acordos entre pais. Não é preciso ir muito longe...

Ricardo- humm não!? Não me lembro de alguma vez ter visto isso.


Braveheart- não te lembras porque és totó. Ainda na década de 60 em Portugal o sonho duma boa mãe era colocar a sua filha de 12 anos a viver na casa duma senhoria como empregada doméstica.

Ricardo- o sonho?


Braveheart- sim, o sonho. Quando se tem muitos filhos e não há alimento para todos, só há duas soluções. Fazê-los emigrar ou empurra-las para famílias mais abastadas. Normalmente os rapazes emigravam, as raparigas iam para empregadas domésticas. 

Ricardo- é, realmente agora estou a recordar. Os meus tios tiveram uma empregada que teria uns 12 anos. E a minha mãe teve outra que pouco mais teria. Olhando assim, parece feio e...


Braveheart- mas não foi. Feio. Pelo contrário. Era uma obra de caridade acolher essas meninas. Por mais voltas à moral que queiras dar, em situações de emergência, a solução óptima é aquela que pode garantir a sobrevivência.

Ricardo- agora até me deixaste mal disposto. Não acho isso certo.


Braveheart- não achas tu, nem ninguém, quando analisada a história com os olhos de hoje. 

Ricardo- então, mas a dignidade humana e os valores têm tempos?


Braveheart- claramente. Há mil ou até mesmo há trezentos anos atrás ter escravos era normal e natural. Aos olhos de hoje isso é inadmissível mas, na cultura de então, certos direitos eram ganhos em certas situações. Por exemplo, se um país invadisse outro e ganhasse a guerra tinha direitos vários.

Ricardo- mas não sobre a dignidade das...


Braveheart- principalmente direitos sobre os vencidos. Direitos de propriedade sobre os vencidos. Uns eram escravizados, outros eram colhidos para diversas funções. As mulheres por exemplo eram levadas para os vencedores da guerra, os homens para escravos.

Ricardo- não estou a gostar muito deste tema, oh braveheart. Mas afinal o que é que isto tem a ver com monogamia?


Braveheart- está tudo ligado.

Ricardo- então explica lá de que são feitas essas ligações.


Braveheart- por natureza o Homem é poligámico. Como os macacos. As fêmeas macacas têm, segundo o artigo que li, cerca de seis parceiros diferentes por mês.

Ricardo- ah caraças.


Braveheart- mas não é isso que importa, pois há vários casos de animais com comportamentos monogâmicos. Não muitos, mas alguns. O ser humano segue a mesma linha.

Ricardo- desculpa lá, mas aquilo que eu vejo é o contrário. O pessoal a casar e a escolher um parceiro ou parceira 


Braveheart- tu contínuas a ver arvore. Pensa bem, nas sociedades ocidentais, aonde há estatísticas fiáveis, os divórcios ocorrem em quantidades impressionantes. Em Portugal e na Europa a taxa de divorcio, face ao total, anda acima dos 50%. O que se passa é a natureza a impor-se, naturalmente. É o chamado monogamismo social ou monoganismo cíclico. Quer dizer, as pessoas são aparentemente fiéis ao companheiro da altura. Mas procuram, maioritariamente, novos parceiros ou parceiras. 

Ricardo- mas então não nos distinguimos dos macacos?


Braveheart-É, digamos um comportamento diferente dos macacos. Enquanto estes trocam de parceiros todos os dias, o Homem troca em ciclos. E dentro de cada ciclo, até o mesmo terminar em divórcio, há aventuras extra conjugais. Segundo a estatística, de entre os casados a taxa de infidelidade anda na casa dos 40%. 

Ricardo- estou banzado.


Braveheart- estás banzado porque em toda a regra há a excepção. 


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 https://www.facebook.com/1774249041/posts/10209516271901717/?sfnsn=mo

Puta que pariu o Meniére

- puta que pariu o Meniére- 

 Braveheart- é impressão minha ou vens com cara de enjoado, com a auréola demasiado murcha?

 Ricardo- não é impressão tua, ando num verdadeiro estado de terror. 

 Braveheart- ah, lá estás tu com os teus exageros. O que de passa pá? 
Ricardo- talvez exagere, não sei os termos de comparação mas, é-me difícil viver sob ameaça constante.

 Braveheart- quem é que o cabrão que te ameaça? 
Ricardo- é o cabrão do Meniére. O síndrome de Meniére que me apareceu assim de supetão. 

 Braveheart- o que é isso?
 Ricardo- é uma espécie de doença sem cura cujos sintomas veem em qualquer altura, sem razão aparente, e desaparecem uns dias depois sem deixar rasto. 

 Braveheart- e que sintomas são esses? Ricardo- os sintomas são aterradores.

 Braveheart-- outra vez a exagerar!?
 Ricardo- pá, aterrador talvez não seja a palavra certa. A palavra certa para descrever o que sinto quando vêm os sintomas não existe. Para lá do terror não encontro outra palavra. 

 Braveheart- Fonix, mas é assim tão violento!? 
Ricardo- é como te digo, não conheci outros termos de comparação. Os que tenho são os que vivo e vivi. Aqueles que tenho numa crise aguda, que vai e vem, semana sim semana não, é descrito na internet como similar a um AVC. Como nunca tive nenhum, não sei bem proceder a uma comparação.

 Braveheart- mas o que sentes realmente? Ricardo- nessas crises periódicas, semana sim semana não, aquilo que sinto é como estar a morrer. Literalmente. Espero desmaiar a qualquer momento durante o fenómeno, ao ponto de estar com o telemóvel com um número pre definido na mão para clicar, caso pressinta que vou desfalecer. Enquanto decorre o evento sinto tonturas e enjoos terríveis, convulsões de vómito e um constante zumbido demasiado agudo e alto para o ignorar. Às vezes o zumbido estranhamente transforma-se no barulho duma centrifugadora de roupa. No princípio deste barulho, andei pela casa às procura dele. Às máquinas estavam desligadas. Depois pareceu-me que o barulho vinha duma máquina de ar condicionado dum cunhado que mora a uns 50 metros. Mas não. O barulho é gerado, afinal, internamente. Poucas vezes apanhei uma bebedeira na vida, talvez duas, daquelas mesmo à seria mas, se tivesse de descrever o que sinto, é semelhante aos sintomas duma bebedeira extrema, como nenhuma real que alguma vez tenha tido. Ou, como diz alguém que também tem isto, é como sair de dentro duma máquina de lavar a roupa depois de meia hora à rodar lá dentro a velocidade considerável.

 Braveheart- mas isso não são os sintomas daquele pessoal que enjooa nos barcos?

 Ricardo- são em tudo semelhantes e até têm a mesma origem na cabeça, no sistema de audição, na pressão e nos líquidos que correm nos labirintos. A diferença é talvez de intensidade e oportunidade. Os primeiros não andam de barco porque sabem ficar muito maldispostos, os segundos ficam maldispostos sem andar de barco.

 Braveheart- e o que fazes para debelar isso? Ricardo- nada pode debelar isto. Não se sabe se é crónico, parece que sim, mas não há cura. Há dois ou três ou quatro compridos que os médicos me receitam que dizem minorar os efeitos. Na realidade não creio que tenham efeito algum, excepto um, precisamente aquele que só posso tomar quando estou mesmo mal. Um corticoide qualquer que desincha a merda dos canais do labirinto auditivo. 

 Braveheart- se não têm efeito porque os tomas? 
Ricardo- bem, eu disse isso à medica que me assiste e ela disse-me. Não fazem efeito!? Então experiente não toma-los. Braveheart- e tu, claro, deixaste de tomar.

 Ricardo- pelo contrário. Aquilo que ela me disse é que se não tomar aqueles medicamentos a coisa pode ser ainda pior. Mas há realmente uma solução final para isto. Queres saber qual foi a resposta da médica? 
 Braveheart- sim, diz lá.

 Ricardo- foi assim, meu caro a única solução para resolver esse síndrome é operar. E eu disse-lhe, vamos a isso então e... 
 Braveheart- ahh então há cura.

 Ricardo- meu caro, continuou a médica, a operação é para destruir os sistema auditivo. Ficaria profundamente surdo e isso só se faz quando esses pacientes já estão surdos por natureza da doença que vai diminuindo paulatinamente a capacidade auditiva.

 Braveheart- quer dizer, caminhamos para a surdez e até lá vais tentando encontrar métodos que adiem as crises? 
Ricardo- sim, é isso. Tenho estado há meses sem comer glúten, agora reduzi drasticamente o sal. 

 Braveheart- ohh e aquela pizza maravilhosa do... e aquele hambúrguer do.... 
Ricardo- esquece. Só carne sem sal, peixe sem sal ( ,excluindo o salmão, a cavala e o espadarte não sei bem porquê), a lagosta também não, embora os camarões possam marchar. Salsa não posso, coentros posso. Feijão castanho não, preto e branco posso. Esparguete e pastas em geral jamais, excepto as sem glúten. Pão sem glúten, bolachas sem glúten também não pode ser porque não tendo glúten têm mais sal. Maioneses, ketchups esquece. Batatas fritas sem sal.

 Braveheart- Epá, já experimentaste ignorar tudo e mandar o síndrome dar a volta ao bilhar grande, é que pior do que aterrador não pode ser, não é?
 Ricardo- não quero nem pensar naquilo que está para lá do terror que já conheço. Tomando aqueles comprimidos conheço um certo terror. Não pretendo conhecer outra intensidade de terror. Não sei se me faço entender. 

 Braveheart- percebo mas, e o os teus o que te dizem? 
Ricardo- finjo estar com aquela cara de aborrecido para disfarçar o mal estar. Todos os dias. 

 Braveheart- estou mesmo a ver, fazes aquela nossa cara número três de...
 Ricardo- já não sei bem qual o número da cara que faço. Normalmente é me difícil discernir e conseguir qual a cara a fazer. Faço a que me é mais fácil. 

 Braveheart- cara de pau...
 Ricardo- De vez em quando, quando vislumbro melhoras, passo para cara de meio pau. 

 Braveheart- podias fazer não fazer, cara de pau nem meio pau. Ricardo- tento sempre não a fazer, até um cabrão dum sintoma leve me subir e fazer pensar que vem por aí sintoma pesado. 

 Braveheart- tens de conseguir conviver com isso. 
Ricardo- pois tenho. Mas ainda não consegui perceber os limites. Sem perceber os limites do suportável e sem perceber quando, como e porquê vão e vêm os sintomas, é-me difícil conviver. Viver é, per si, uma Graça ou uma benção. 

 Braveheart- ainda bem que estás nessa onda.
 Ricardo- bem, durante as crises esqueço-me de tudo, não vejo nada nem ninguém e concentro-me em manter vivo.

 Braveheart- isso, mostra a esse cabrão Meniére quem manda no nosso sotão. Ricardo- confesso, porém, que no zénit dos sintomas, naquele ponto em que já estou há muito tempo na luta e profundamente cansado, a minha concentração vai toda para Deus. Nesse momento, caminhando pelas trevas para o local mais profundo da amargura, naquele ponto em que parece que o pesadelo não tem fim, rogo a Deus nosso senhor que mande o raio de imediato.

 Braveheart- Fonix, isso chega a esse ponto. Ricardo- chega. E depois de conseguir dormir, como se nada tivesse ocorrido, na manhã seguinte acordo porreiro... até que volta e meia, um sinal aqui e outro acolá desenvolve-se e volta tudo ao mesmo.

 Braveheart- puta que pariu o Meniére. Ricardo- o lado hilariante e positivo disto é a experiência de estar no ponto alto dos sintomas. No zénit. Braveheart- hilariante, mas então não é o pior momento do percurso!? Ricardo- é sim, de facto, os fundos do buraco negro onde me vejo mergulhado mas, ao contrário do que eu pensava, lá no fundo do abismo encontro uma luz. Há um gene do meu pai Bravo perdido em forma de luz que me fervilha nesse momento e aparece em todo o seu esplendor e me incita como quem grita: Resiste. .

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

… not so civilized gajos…


Bom dia, aonde quer que me estejam a ver! Hoje, este vosso repórter, saiu da cubata e encontra-se aqui, a bordo do porta-aviões USS Fuckthemall a entrevistar o Almirante Texas Jack Fuckistamos, presidente deste circo flutuante.

Imagem075

Braveheart (Bh) - Ora bem, almirante, vou directo à questão: o que significa "zona de exclusão aérea"?
Almirante Texas J. F (ATJF) - Well, significa escaqueirar aquela merda toda! In military linguagem. Very simple, indeed. No Bullshit!
Bh - Ah, bem me parecia. E "zona de exclusão naval"?
ATJF - Same coisa: escavacar aquela porcaria toda!

Bh - Correcto. E "zona de exclusão terrestre"?
ATJF - Espatifar a torto e a direito, sem contemplações. No dúvida.

Bh - Muito bem. E "acção humanitária"?
ATJF - what?!!
Bh - "Acção hu-ma-ni-tá-ria". Humanitary stuff!...
ATJF - well... Humanitary stuff or cemitery stuff, no diferença. First we bomb, then we bomb, and bomb again, just in case, quer dizer, escaqueiramos aquela shit toda, in a sistematic e simpática way.

Bh - E pessoas, o que significa "pessoas"?
ATJF - Fernandos?...
Bh - No, no. Not poets, pessoas - people!
ATJF - people? No such coisa nestes places. There is no people: somente bad gajos!
Bh - And good gajos?
ATJF - We are the good gajos. The other gajos são bad gajos!

Bh - Mas então vocês não receberam um mandato para proteger gajos?
ATJF - Oh, esses ones, são bad gajos que nós temos que proteger dos very bad gajos!
Bh - E como é que pretendem fazer?
ATJF - well, primeiro we bomb, depois veremos! Em caso de doubt, nós bomb again. Depois, we will see. Talvez we invade for our Marines brincar aos check-points. They love check-points!...

Bh - Almirante Texas, estou aqui a mirar este míssil Tomahawk... Quanto custa um brinquedo destes? How much money, compadry?
ATJF - Arround 750.000 USD.
Bh - E quantos pensa gastar em cima dos very bad gajos?
ATJF - Well, pá... Nós have metas de produção como qualquer outra indústria ou service. So, assim por alto, estou a pensar em todo o stock. This is full USA stuff, bom para o american worker. E ainda por cima tem prazo de validade, like iogurtes.
 
Bh - Mas não podem usa-los passado o prazo de validade?
ATJF - Oh no. That não seria decent. Neither legal. We have very strict sanitárias regras. O nosso Infarmed – o FDA, as we chamamos - exerce um controlo rigoroso sobre estes issues. . That's por isso que somos a very civilized country, o esteio da luz and democracy in the world!... Se atirássemos mísseis caducados aos nossos targets , seria o mesmo que um médico ministrar supositórios fora de prazo aos seus doentes.
Bh - Portanto, esgotado o prazo de validade, lixo.
ATJF - No. As a matter of facto, we are civilized, not estúpidos. Esgotado o prazo e validade, we sell it to the jus (jews). Depois, os jus vendem-nos aos not so civilized gajos.

Bh - By Jus tu mean the...
ATJF - Yes, I mean the...
Bh - And por "not so civilized gajos" significa quem, por exemplo?
ATJF - Angola, Paquistão, Portugal, Irão...
Bh - Irão?!!...
ATJF - Yes. Jus vendem-nos ao Irão, througt Venezuela or Ukrania, transformed in mini-tube-misseis.
Bh - But, não é isso insane?
ATJF - No, they are very clever gajos, estes Jus. After comprar estes mini-tube-misseis from them, os Iranians enviam-nos para o hezbolla e para a palestina. Só que como estão armadilhados com micro-emissores, pelos Jus, são facilmente detectados e recapturados pelos Israelis. Que os revendem em África. Onde os Iranianos os buy again e tornam a enviá-los to the same circle. And so on and on... It's a never ending negócio!...
Bh - Bem, almirante, obrigado pelo seu tempo e pelos esclarecimentos. Agora agradecia apenas uma boleia de helicóptero até à Líbia. Convém ouvir a opinião dos bad gajos acerca da vossa terapia de choque.
ATJF - No problema. And by the way, não quer autografar este next Tomahawk?...
Bh - Ok Compadry... posso fazer um coração com uma seta e uma dedicatória?
ATJF - Whatever queiras!...
Bh - Ok. Então... «braveheart misses mary n’ misses maggy n’ spidermario too)»
Bh – Já agora, almirante, não quer mandar este tomahawk para Braga with me atado com um parashute and sem ignition?
ATJF – Braga, is that em Lisbon?
Bh – Não, em Portugal, no norte.
ATJF - Here o que nós podemos fazer: eu can send you no tomahawk, largo-te em Braga, but i can do nada about de ignition, my man, sorry.
Bh – Ok, não há problema Almirante, largas-me lá e de seguida manda-o inverter o curso rumo a sul e mergulhar como uma águia sobre um tasco que a perdeu.
ATJF – Deal.

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quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia dos pais

- Alô pai?
- então Caco, bons ouvidos te oiçam. A última vez que me ligaste foi...
- Eu sei, eu sei foi... mas penso em ti todos os dias.
- Hummm
- A sério pai. Consulta aí os anjos a ver se não é verdade. É, pois.
- Eu sei.
- pai, ando para te perguntar isto faz tempo.
- Diz lá.
- Como é isso por aí?
- Tu sabes que não posso revelar essas coisas.
- Épai, mas revela lá algumas coisinhas. Tem bolsa de valores e banqueiros e jogos de futebol; como se deslocam de um lado para o outro, voam, tem coches celestiais, tem moças bonitas, como é?
- Tem tudo isso. Movemo-nos por indução mental.
- Uau, e tens amigos ou andas sempre por aí sozinho a vaguear com o jornal debaixo do braço?
- Amigos e familia. Muitos. São almas com quem tivemos contacto quando andei por aí. Jornais também temos; e eu até tenho uma coluna no Celestial Post.
- A sério?
- Sim, a sério.
- De que falas nesses artigos?
- Discuto.
- Discutes o quê?
- Não discuto o quê. Discuto apenas. Há hábitos que não se perdem assim de repente.
- Pois. Bons bravos hábitos. Mas discutes com almas, como direi, de pessoal já falecido ou metes-te à discussão com hierarquias superiores?
- Como sabes?
- Não sei, estou a perguntar?
- Tive um diferendo com o Arcanjo Gabriel.
- Oh!
- Pois, eu sei, não devia. Ele priva com Deus e fui chamado à Sua presença por causa disso?
- E então, esclareceste que essa estória é apenas uma hábito terrestre e...
- Bem, ahhh, quer dizer, acabei a discutir com Deus.
- Uichhh, condenou-te?
-  Quase. Por milagre safei-me.
- Milagre de quem?
- Do teu filho primogénito, meu neto.
- Como assim, o Ricardinho que...?
- Sim, o rapaz ascendeu a altas esferas celestiais.
- Não!?
- É, tem funções de anjo advogado de defesa dos arcanjos.
- Ah meteste-lhe uma cunha então?
- Não é preciso. Eu vivo com ele desde sempre. Ensinei-lhe tudo o que sei sobre leis e códigos e ele tirou o curso com elevada classificação. Até o Diabo o sondou a ver se o recrutava para dirimir argumentos de posse do Paraíso.
- E ele, não aceitou?
- Não. Ele é o terror da litigação contra demónios.Nada o demove desse desiderato.
- E como é que o tentaram aliciar?
- Pela negativa. Esse foi o erro dos demónios.
- Como assim?
- Disseram-lhe que teria companhia da irmã se não aceitasse a oferta. Um logro.
- Filhos da...
- Pois. Mas ele não cedeu à chantagem.
- Isso. Mas essa postura significou infelizmente que a irmã lhe fez companhia,
- Sim, é um facto, sabes bem. Também cuido dela desde sempre, ara que saibas. Mas o teu filho tinha um plano maior para fazer o que fez.
- Sim, qual é esse plano?
- Assegurar-te mais dois.
- Fónix. Estou baralhado.
- Eu explico: O logro é que ela já viria na mesma por designios do Altissimo e o teu filho percebeu-lhes a artimanha.
- E fez com eles um acordo, com aval de Deus.
- Que acordo foi esse?
- Assegurar-te dois sublimes e maravilhosos filhos. As partes que podiam obstar ao seu nascimento foram enredadas no acordo que ele fez.
- Nem o Diabo, nem o Altissimo intervieram para prejudicar que pudessem ter éxito. O Mário e a Margarida.
- Estás  a brincar comigo, isso foi mesmo assim?
- Claro que foi. Até te digo mais, O Altissimo, que tudo pode, à socapa botou neles uma centelha especial. Serão dois anjos.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Highway to HELL







No dia do meu aniversário acordei ligeiramente mais tarde. Tinha estado a ler excertos da ‘Divina Comédia’, na internet, noite adentro.

Nesse domingo de manhã, Cavaco Silva discursava a propósito das comemorações da implantação da república. Readormeci. Um comprimido de política genérica é excelente para quem sofre de insónias. Que tome boa nota o senhor ministro da saúde para poupanças na factura medicamentosa.

Adormeci durante cerca de uma hora e picos.
Nesse espaço de tempo sonhei tão densamente quanto os textos que tinha acabado de ler.

Naquele, tinha sido resgatado da velhice. Olaré. Não há forma de deixar de ser o actor principal quando cerro as pálpebras. Deve ser uma compensação, sei lá.

Mas é nessa condição messiânica e heroica que a minha alma se revê quando descansa. Eu sei lá porquê. Não sei. Pois, então, se não fosse uma injeção de delírio caprichoso que os neurónios debitam quando repousam, que piada teria sonhar?

Eu gosto de filmes épicos. E de novelas também.  Mesmo as brejeiras., embora nunca saiba bem se realmente as vi. Nunca sei, mas também não faz mal. Serve de paliativo indutor para o santo descanço.
Pois bem, lembro-me apenas do senhor presidente da república a dizer umas coisas e…

...
...

… e proferiu, então, a decisão de me enviar  às profundezas. Profundezas e quenturas.
Não consegui obter resposta à pergunta que Lhe fiz. Ele estava decidido e determinado. Eu diria mesmo: obstinado.
 Virou-me costas, por assim dizer, e segredou com alguém. Pareceu-me o Diogo Morgado, mas não tenho a certeza.

-Olhe, se faz favor, senhor homem-pássaro, pode voltar a chama-Lo, queria dizer-Lhe mais uma coisinha. Pode ser?
-($/%)$)$4  4$nfn4

- Que língua é essa? Não percebo o que diz.
- Não sou um homem-pássaro.

- Parecia-me o Vultan, amigo do Flash Gordon, por causa das asas.
- Sou um anjo. Tenho de levar-te para o inferno.

- Não acha melhor ministrar-me um estágio para formação operacional. Nunca lá estive e não sei bem como proceder. E depois funcionaria como espécie de meio transitório de adaptação do corpo ao clima. Ouvi falar que isso era coisa importante quando perdemos com os boches no mundial de futebol no Brasil.
- Não tens corpo. És agora uma entidade imaterial.

- Mesmo assim, ainda sinto arrepios, e até uma ligeira coceira nas partes baixas. Não estou devidamente preparado, não lhe parece? Podia ser nas Bahamas – imagine - dizem que é  quente e tem vulcões. Um local perfeito para estágio.
- O estágio já te foi dado. A juventude e a meia-idade. Retiramos-te da velhice para te alojar no inferno. Da velhice, precisamente, porque os pecados cometidos na velhice são mais graves e dificilmente perdoáveis, pelo que não poderias fazer o que vais fazer nesta viagem se não te resgatássemos da velhice.

- Qual viagem?
- Highway to hell.
- A tournée dos AC/DC?

- Não. Todos os seres humanos vão para o inferno. Até o Filho por lá passou, para exemplo e expiação, sem ter cometido, porém, pecado. Mas não foi lá esquecido. Foi resgatado ao terceiro dia. Tu visto-O há pouco.

- Nossa, não era o Diogo Morgado! Era mesmo Ele? Pressinto que vou desmaiar, vejo as coisas a girar…
- Óptimo.  Está na hora de te inculcar informação, rapaz.
- Inculcar, tipo uma ligação ao sistema Matrix onde aprendo golpes de karaté e a pilotar helicópteros e instruções para deter balas infernais, suster-me no ar com ares de Keanu Reeves e… ?

- Sim, mais ao menos isso. É o estágio, digamos. Acompanhar-te-ei durante algum tempo até chegarmos ao primeiro circulo do inferno e… Ah desmaiou, finalmente.
...
...
- É aqui o inferno?
- Aqui é o local por onde Lucifer embateu quando foi forçado à queda, perfurando um abismo imenso até ao centro da Terra. É o local de entrada. O Portal do Inferno.
- Olha, pois é, lá está o arco com o aviso que diz «Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança...». Que medo.

- O inferno é constituído por Nove Círculos, e dentro destes há Três Vales, Dez Fossos e Quatro Esferas. O inferno torna-se mais profundo a cada círculo, pois os pecados são mais graves. Portanto os pecados menos graves estão logo no início, e os mais graves no final. O primeiro é já ali à frente, o Limbo, onde estão as almas de Sócrates, Aristóteles… e estiveram as almas de Adão, Noé, Moisés, Abraão, Isaaq… é um local de passagem obrigatória onde permanecem unicamente os virtuosos pagãos. Os outros vão para círculos inferiores, digamos, mais densos.


- Fico-me pelo primeiro, então, certo?
- Tens de passar em todos os círculos e...

- Não percebo. Então, se fiz asneira, diga-me a que círculo corresponde a intensidade dos meus pecados.
- Fizeste muita asneira, graças a Deus, mas não é por elas que vais ao inferno. Foste escolhido para uma missão Divinal, no inferno todo.
- Eu?

- Lucifer, ao contrário do que se pensa, tem uma vontade firme e ilimitada em viver no Paraíso. Ele adora e anseia pelo paraíso.

- A sério?
- Sim, ele quis o Paraíso que Deus construiu. Mas também não gostou nada da ideia de se submeter a um Homem feito Verbo. Usou várias formas ardilosas para comandar o paraíso. Os círculos representam a intensidade de todas essas formas rasteiras que ele usou para se substituir a Deus e perpetuar os comandos do Paraíso. Mas Deus antecipou-se e castigou-o, lançando-o violentamente para o abismo, fazendo-o sofrer as agruras das acções cometidas em todos os círculos do inferno.


- Ok, parece justo. Mas e eu, porque é que devo seguir os mesmos castigos de Lucifer?
- Do Abismo, Lucifer pretende agora usar os métodos que Deus usou para a efectuar a Criação no sentido de retornar ao paraíso e conquista-lo finalmente.

- Como assim?
- Deus fez-se Carne, há uns tempos, para entrar no Inferno. Naquele local só pode entrar quem encarnou. Sofreu na Carne as agruras da vida e, na cruz, a consumação do objectivo, com o fim de ir parar ao inferno de onde resgatou algumas das almas virtuosas, abrindo a porta para que os seres humanos de boa índole pudessem elevar-se aos Céus.

- Fogo.
- Jesus representa a libertação do jugo onde Lucifer fez perorar todas as almas desde que caiu. Foi a Chave para abrir a fechadura ardilosamente feita por Lucifer, pelo que, a partir dessa altura, a passagem dos infernos para os céus processa-se por méritos, automaticamente após estágio no primeiro círculo. Antes de Jesus não havia acesso ao paraíso, portanto., porque Lucifer tinha bloqueado o sistema de ascensão.

- Porra! Jesus morreu mesmo por nós. Eu pensava que eram babelas.
- Pois.

- Mas então que missão divinal me foi atribuída? Jesus não resolveu já a coisa vencendo Lucifer por KO técnico e na sua própria casa?
- Sim. O problema é que Lucifer está a usar métodos mais apurados, a replicar os do Altissimo, que colocam Deus numa situação melindrosa do tipo: para fazer bem à humanidade tinha que fazer mal.

- Ai sim?
- Sim, Lucifer está a usar a humanidade para aceder ao Paraíso. Ele não age por sua própria conta nem usa os seus próprios braços. Usa a humanidade para fazer o serviço.

- Mas não foi dessa forma, embora de sentido oposto, que Deus agiu quando encarnou em Jesus? Quer dizer, Deus também usou de ardil para entrar nos infernos através da morte de Jesus e reformular o modo com algumas almas podiam ser salvas e rumar ao Paraíso.

- Sim, foi. E esse é que é problema. Deus considera a humanidade e usou-a para beneficio dela mesma enviando o Filho. Ao passo que Lucifer a quer usar para perversão do sistema de ascensão aos Céus e enfileirar-se no sistema para aceder ao paraíso e conquista-lo.

- Epá. Mas então, como é que esse camafeu do Lucifer está a fazer esse uso da humanidade?

- Dir-to-ei mais à frente. No segundo círculo do inferno há um juiz à entrada para julgar o nível do círculo que o teu passado comportamental pressupõe. A esse juiz está vedada a hipótese prática de conscientemente aldrabar a pena, sob pena de colocar nas profundezas desse Inferno um anjo dos bons enviado por Deus. De forma que esse juiz tem de ser imparcial.
- Hummm, pois, Deus podia enviar um agente duplo.

- A ideia é conseguires passar o segundo círculo, onde és julgado, que é onde começa verdadeiramente o inferno, e seres condenado ao último circulo, o nono que, ao contrário do que pensas é o nível de gelo e não de fogo.

- Fogo, é de gelo?

- Dentro deste circulo estão imersos os traidores, representados por Lúcifer, o traidor de Deus, que aqui reside. Os traidores distribuem-se em quatro esferas diferentes dentro do nono circulo, dependendo da gravidade da traição cometida. As esferas chamam-se: Caína, Antenora, Ptolomeia e Judeca. Lucifer está na esfera Judeca. Nesta esfera reside Lúcifer, preso no gelo até o meio do peito, peludo, com enormes asas que possuem membranas como a dos morcegos no lugar de penas que provoca um vento sentido por toda a esfera. Ele tem três cabeças e com cada uma delas, morde um dos três maiores traidores da história: Judas, Brutus e Cassius. O numero de cabeças está a crescer e estão em fila de espera vários outros grandes traidores. O nome da esfera vem de Judas, o traidor de Jesus.

- Valha-me Deus. Eu vou para aí?
- Vais.

- E o juiz imparcial? Ele vai detectar que eu nunca fui um Judas ou um Cassius.
- Por isso te inculquei informação. Os sensores do juiz imparcial monitorizarão em ti condutas abjectas no teu passado e condenar-te-à ao nível de um Judas, colocando-te sob o jugo directo de Lucifer.

- Ah, a inculcação era para ele detectar um tipo de alma em mim que na realidade não fui. Uma espécie de avatar.
- Sim.

- E porquê eu e não outro melro qualquer?
- Não te posso revelar-te o motivo. Saberás no seu devido tempo.

- Detesto mistérios que envolvem a minha alma. Mas olhe, não sei se me aguento nessa empresa. Talvez me vá abaixo oh… como é que te chamas?

- Alighieri.
- Alighieri? o Alighieri que viajou em companhia do poeta Virgilio por todo o inferno, purgatório e subiu o monte rumo ao paraíso?

- Esse mesmo.
- Uau. Dantesco.
...
...
Cavaco Silva já tinha acabado o discurso quando o Ivan me telefonou ‘como é que é, vamos comer uma francesinha ali ao Lookal?’

Pois, vamos. Respondi-lhe.

O sonho perdeu-se naquele momento, mas recomeçou nessa mesma noite. No exacto ponto onde o deixei. É incrível, eu sei. Creio que os meus neurónios adaptaram-se lindamente às novas tecnologias. Pause’s e save’s e load’s passaram das tecnologias de silício para as de nervos e carnes, naturalmente.

Novamente, à noite, a reviver o discurso quase integral de Cavaco Silva que os telejornais insistem em apresentar e de bónus, para misericórdia, juntaram o discurso de António Costa,. Senti imediatamente as pálpebras pesadas. Ainda consegui ouvir que quer repor o feriado…
…
...

- Perguntavas-me de que forma está Lucifer a usar a humanidade para conquistar o Céu.
- Certo.
- Pois, Lucifer usa a humanidade de distintas formas e maneiras.
…


(há-de continuar)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

A deslisar, sempre viscoso, qual caracolinho da Casa do Além



Cansado de remar contra a maré, decidi ser pluralista. Quer isto dizer que em cada dia da semana serei sua coisa. Passo a enumerar...

À segunda-feira:
Adopto uma postura juvenilmente nacionalista. Com tatuagem e piercings a rigor, hesitarei entre dedicar-me à criação duma espécie de rafeiro lusitano com pedigree ou uma variante espirituosa de tuga peregrinus, em romaria pelo melhor dos mundos. No pior dos casos, ultrapassarei o entorpecimento ancestral dos brandos costumes, elaborando cargas homicidas ou raides punitivos contra a claque do clube rival, ou daquele que estiver mais a jeito nesse dia.

À terça-feira:
Serei marxista-leninista-stalinista.
Acharei bem que se mate, interne ou dê sumiço a quem não concorde comigo porque põe em risco a revolução e o caminho para a redenção humana. Morrem, são lobotomizados ou evaporam-se por uma boa causa e o que conta é a intenção. Os fins justificam os meios. Ámen.

Às quartas:
Serei democrata-liberal, de manhã; e democrata-neoliberal, à tarde. Tecerei louvas ao indivíduo e prostar-me-ei, às toladas e vénias, virado para Wall Street, em vassalagem ao Alá-El-Mercado e à pedra negra da Sociedade Anónima. Nada de pegar em armas: apenas calculadoras, telemóveis e portáteis. As armas, abençoadinhas não obstante, apenas as venderei para que outros se matem. De preferência pretos, árabes, chinocas, SLB’s ou quaisquer dessas escórias que não o branco anglófono made em Harvard, Yale ou Oxford e a sua corte internacional de cheira-cus e beija-(B)rabos. Aproveito a confusão para mandar matar também alguns, cada vez mais, muito maus, que se opõem à redenção da humanidade pelo Milagre do Mercado, e vou sacando matérias primas e mão-de-obra ao preço da uva mijona.

À quinta-feira:
Serei democrata-cristão. Militarei sob um permanente estado de espírito esquizofrénico: a minha metade liberal, qual Caim belicoso, tentará matar a outra metade devota; a parte de mim que venera Mamon, arma emboscadas à minha parte que louva a Deus. Durante o dia, aproprio-me o mais possível; durante a noite, em sonhos distribuo. Pelos lençóis.

À sexta-feira, hoje portanto:
Serei da esquerda evoluída, lacoste. Só matarei embriões e tipos vegetalizados em camas de hospital. Em suma: coisas que não se possam defender. Pensarei também, muito, nas indumentárias, maquilhagens e penteados que melhor se adequam à próxima manifestação: aquela em defesa de facínoras, psicopatas e serial-killers, coitados, que o sistema fassista quer condenar à morte, no Texas ou na Cochinchina. No fundo, serei uma espécie de marxista-leninista desóssado. A deslisar, sempre viscoso, qual caracolinho da Casa do Além (os melhores do país, passo a publicidade), de corninhos retrácteis e a causa às costas.

Aos sábados:
Serei republicano laico e progressista. Aqui é muito simples: comer e buber, ó terrim-tim-tim, passear no mundo. De manhã, à tarde e á noite. Às expensas do erário, evidentemente.

Ao domingo:
Serei conservador. Vou à missa, comungo e confesso todos os meus pecados. Dou banho à alma. Sou absolvido e recomeço tudo de novo. No meio de tudo isto, é importante conservar os escrúpulos e a consciência distraídos com qualquer coisa.

Agora não me venham dizer que não sou um gajo moderno.
Se isto não é ser moderno, então não sei o que seja. E duvido mesmo que tal disparate exista.

sábado, 22 de junho de 2013

... acordar devastado a meio da noite, prefiro uma Sónia a uma Insónia...

Tive um pesadelo. Daqueles horripilantes.

Começava comigo a acordar, uma insólita manhã, transformado em Político. Nada mais, nada menos que um Passos Coelho, ouviram bem. Já me tinha acontecido isso no passado recente, com o político anterior a este, José Sócrates de sua graça. Ambos (pesadelos) tenebrosos, em intensidade e grau.

Anyway, ao princípio, ainda estremunhado, ao descerrar as pálpebras, era apenas uma sensação bizarra, de um estranho desconforto. Mas, quase de seguida, o desconforto transformou-se em angústia e, ainda não tinham passado cinco minutos, já a angústia degenerava em horror.
Apesar do grande trauma que ainda agora me dilacera e me descompassa o sistema cardio-vascular, não resisto à narrativa. Tenho que contar a alguém, partilhar com terceiros esta medonha experiência... Talvez haja por aí um exorcista benemérito para esta maldição que padeço.

É verdade que eu, como referi, descerrava as pálpebras. É o que geralmente as pessoas fazem, ao acordar e, nisso, um Bravo, incrivelmente, não difere das pessoas.

O problema é que quanto mais as descerrava –cheguei mesmo a escancará-las com desespero e desmesura – mais negras e densas me surgiam as trevas em redor. Dir-se-ia que eu flutuava num aquário de trevas.
Porque, verdade verdadinha, quanto mais escaqueirava as vistas, menos via. Mau!, pensei para com os meus botões, queres ver que acordei a meio da noite, devastado por alguma insónia?!...

Toda a gente sabe que eu, a acordar devastado a meio da noite, prefiro uma Sónia a uma Insónia.
Aliás, a insónia, está provado, só se instala na ausência da Sónia [isto vai dar problemas com a Mary, ai vai vai].

Mas não nos afastemos do essencial, falava-vos daquele estranho breu. Por causa das dúvidas, estiquei o braço na direção do candeeiro. Experimentei então a curiosa descoberta de já não ter braço. Pelo menos, o direito. Pôrra!, pensei, mas que merda vem a ser esta?! Queres ver que alguma brigada de traficantes de órgãos me amputou o braço durante a noite!...

Convenhamos que uma brigada dessas é pior que um acesso de insónia. Diria mais: muito pior. Acho mesmo que foi a partir desta conjectura que a angústia se instalou.

Ora, em momentos de angústia eu cultivo o pouco recomendável tique de coçar os tomates. Vocês não sei, mas a mim ajuda-me a coordenar e reorganizar as ideias.

À falta da mão direita, desaparecida com o respectivo braço para parte incerta, tive, naturalmente, que recorrer à esquerda para dar andamento à deselegante função. "Tive" é força de expressão, porque na realidade também a esquerda, verifiquei-o com amargura, primava pela ausência. Estou em crer que esta alarmante constatação iniciou o processo de transformação da angústia em horror. Nesta fase, se isso vos interessa, comecei a sentir aflição. Muita. O caso não era para menos, até porque a suspeita da brigada de pilha-órgãos agravava-se: quem rouba os braços também rouba os olhos, rouba os rins e, pior que tudo, supremo furto, até subtrai os testículos!

Nestas alturas vertiginosas, um homem lembra-se sempre de Deus. Um Bravo, aí, também não difere muito. Ó Deus!, carpi eu, já a ficar preocupado. Tu não ias permitir uma safadeza dessas, pois não?!
Mas então lembrei-me das safadezas todas que são autorizadas por esse mundo fora e um cabrão dum cepticismo teológico instalou-se-me no pensamento e desatou a dar-me nós na figadeira. Não há nada mais nefasto para a esperança dum indivíduo que o filho da puta dum cepticismo. Minúsculo que seja, basta uma gota para poluir um oceano. Veneno mais contaminante não conheço. Deixei-me de rezas e virei-me para os factos. Quando a oração não funciona, há sempre o anestésico, e nisso a ciência é o que de melhor há para camuflar a coisa e iludir o mamífero. Vejamos, ponderei, apelando à lógica, deve haver uma explicação científica para tudo isto.

Atrevi-me mesmo a enunciar uma tese: se calhar, não sinto os braços porque estão dormentes. Eureka, quase gritei. Animado por esta perspectiva, e no fiel cumprimento do método científico, dispus-me a validar quanto antes tão promissor enunciado. Para o efeito, bastava levantar-me, fazer um pouco de exercício, até que a circulação de sangue se normalizasse por todo o organismo, e voltaria a sentir os braços, coçaria os tomates, abriria os estores, a luz do dia devolver-me-ia a visão (tudo por esta ordem prioritária), e eis-me de volta à normalidade.


Nada, portanto, mais simples e todo aquele mal entendido se dissiparia. 

Mas a minha saga de arrepiantes descobertas ainda não tinha terminado. A que me aguardava no instante seguinte não só confirmava como agravava as anteriores. E atirava com a ciência para o mesmo sítio para onde já despachara a religião. Estais preparados? Já retirastes as criancinhas da sala? Tendes o testamento em dia?


Pois aí vai:
Ao querer levantar-me – naquele salto atlético, felino, viril, que me caracteriza e é apanágio e timbre das últimas vinte gerações da minha família, pois, bem, ao ensaiar esse gesto quotidiano mas não obstante sempre glorioso – pude testemunhar, em primeiríssima mão, que não só, a juntar aos braços, me faltavam as pernas, como, por artes rasteiras de sabe-se lá que coiso demoníaco, não restava nenhuma das minhas outrora lindas e queridas vértebras.
Pude também perceber que, em lugar da espinha dorsal com que sempre me conhecera, equipava-me agora uma dura e convexa carapaçazinha que, a fazer fé no design, me assemelhava perigosamente dum qualquer insecto comedor de bosta.

Salvo erro, foi nessa altura, no preciso momento em que me vi transformado num repugnante insecto – o político, que ultrapassei a angústia, despenquei da aflição e mergulhei de cabeça no mal cheiroso e genuíno tanque do horror. Imaginai-vos equipados de pelos, armadura bocal trituradora e metamorfoses completas, essencialmente sem coluna vertebral, e dizei-me cá se não é caso para cagaço completo?

Mais que completo: absoluto! Não vos recomendo a experiência. Do que um Passos Coelho pensa guardo-vos para outra ocasião. O Horror, como a melancia, requer tempo de digestão.
E se não faço agora um pequeno intervalo, é mais que certo que ainda vos borraríeis todos pelas pernas abaixo. Isto, aqueles que não vomitassem as tripas, preferindo o esgoto superior ao anterior.

Por falar nisso... para a segunda parte trazei daqueles saquinhos de avião. É mais que certo que ides precisar. Dão um jeitão do caraças quando a náusea se instala, o chão desata a girar alucinantemente e nós, à falta de Deus, da Nossa Senhora e dos santos todos, vemo-nos sem outra alternativa que gritar ao Gregório. Bem alto!

sábado, 19 de maio de 2012

A Restauração do Canibalismo






Bh – Ricardo ainda bem que chegaste, tenho estado a pensar em formas de resolução de alguns problemas do país.

Rb – Era suposto ser eu a pensar, mas enfim, diz lá.

Bh – Dos vários tabus civilizacionais - mais ainda que o incesto, a pedofilia, ou o infanticídio - há um que sobremaneira me repugna: o canibalismo. Mas, bem vistas as coisas, e ainda mais os tempos em que vivemos, cheguei à conclusão e sou forçado a reconhecer que é apenas mais uma prova de como sou um indivíduo preconceituoso, obscurantista, bota de elástico e até, a limite, faxistóide. E irrealista. Muito. Irrealista e obstinado. Todavia, decidi arrepiar caminho. Nunca é tarde para nos resgatarmos às nossas inibições, digo, erros.

Rb – De que falas Braveheart?

Bh- Ahh de canibalismo.

Rb – Estás doido!?

Bh – Não pá, estive a pensar no desemprego em Portugal, a nossa pátria e, enfim, de modo a compensar o nosso Portugal de todos estes meus atrasos, decidi lançar-me na proposta dum avanço tão natural quanto lógico para a resolução do problema.

Rb –hummm

Bh – Vê bem, como diz a Bíblia Sagrada, há um tempo para tudo. As pessoas, não sei porquê, tendem a ler o tudo como um quase-tudo, mas fazem mal: é mesmo tudo que está lá escrito.

Rb – e…

Bh - E se está lá escrito, quem somos nós para duvidarmos? Eu, por mim, deixei de alimentar dúvidas. E basta-me olhar à minha volta - ver telejornais, jornais, filmes, revistas, blogues e facebocas (twits é coisa que ainda não adquiri estômago para frequentar, mas, concluído o curso de faquir cibernóico que venho frequentando, lá chegarei; não percas a fé) - pois, como dizia, basta-me a realidade circundante para que uma fria e arrepiante certeza me invada.

Rb – Estou cansado Braveheart, vai directo ao assunto…

Bh – Certo. Ora, isto é como tudo: há um tempo para a subida e há um tempo para a descida; há uma tempo para a paz, e há um tempo para a guerra; há um tempo para o amor, e há um tempo para o ódio; há um tempo para o nascimento e a juventude, e há um tempo para a velhice e a morte. É uma lei eterna e imutável, esta coisa do Tempo. Por isso, capacitemo-nos: houve um tempo para a civilização e agora há um tempo para o seu contrário. Houve um tempo para erigir - e que belas catedrais e sinfonias foram capazes os homens de erguer ao céu -mas agora está na hora de ruir, de estender passadeiras rolantes de cacos, lixos e entulhos na direcção do abismo.

Rb – Tenho receio do que vem por aí pá… vá desenvolve.

Bh - Nesse sentido, nós, portugueses, temos uma palavra a dizer. Bem, agora, não será palavra propriamente dita, será mais grunhido, guincho, ronco ou ruído que o valha, mas o que quer que seja, convirá que nos represente condigna... neste caso, indignamente. Em suma, urge que não se deixe vago o nosso lugar no camarote dos acontecimentos.
Rb – Caraças pá, diz lá que coisa pensas.
Bh - Vamos então à proposta concreta. E nada modesta, porque isso de modéstia é para Gregos.
Rb – Sim…
Bh - É verdade que temos pedalado, regularmente, na retaguarda do pelotão da Descivilização. Enquanto outros povos e regiões se têm descivilizado a grande velocidade, nós, muitas vezes, e até por vergonhosos períodos, temos progredido a trouxe-mouxe.
Rb – Como assim?
Bh -Ao infanticídio dos abortos, por exemplo, só recentemente lá chegámos - já inúmeros outros, em fogoso galope e tumultuoso sprint, tinham cortado a meta há séculos. No Terrorismo, na chacina industrializada, ainda vamos a milhas. Já toda a europa e quase toda a ásia e américa descansam no hotel, saboreando as delícias da sauna e da massagem, e ainda zanzamos nós, pela encosta abaixo, perdidos. Não admira, assim, que nos olhem com desprezo e desconsideração. Por este andar, assaz lerdo e entorpecido, ainda acabamos absorvidos pelo carro vassoura da prova, e um dia destes, quando se fizer a história da Descivilização, nem uma nota de rodapé, ínfima que seja, nos prestará memória.
Rb – Sim, consigo estar de acordo…
Bh - Pois chegou a hora de darmos uma violenta sapatada no pelotão! Aproveitamos o factor surpresa, e, passarmos por estes descivilizados todos a jacto, que nem um foguetão, e encetamos uma fuga mirabolante que só terminará em glória. E uma pipa de massa pela vitória, olaré.
Rb – E como daremos nós essa sapatada inaudita, espectacular e miraculosa?
Bh - Muito simples: legalizando, melhor dizendo, restaurando o canibalismo.
Rb – Como? epá que conceito macabro – a restauração do canibalismo. Queres expressão mais infeliz e, por isso mesmo, esplendorosamente marketil que esta?
Bh – Compreendo mas…
Rb - De que forma?
Bh - É simples, lógico e moderno: vamos comer os desempregados.
Rb – Nossa senhora, que dizes?
Bh - Vê bem ricardo, já os criamos em forma de gado - como a Argentina cria bois, a austrália ovelhas ou a antártida pinguins, nós criamos desempregados, manadas e manadas deles…
Rb – sim…
Bh – … falta agora processá-los consequentemente. É um monumental desperdício de carne a que a nosa economia periclitante não se pode dar. De carne, de dinheiro e de tempo.
Rb – Braveheart, promete que não publicas isto. É uma vergonha dedicares o nosso tempo a um assunto tão, tão… ignóbil, peçonhento.
Bh – Calma pá, eu explico sucintamente: ao contrário dum boi ou dum porco, um desempregado, quanto mais tempo é deixado na pastagem, mais emagrece. Por uma razão muito simples: o desempregado não pasta. Monetariamente inibido, deprimido, socialmente odiado, abominado pela própria família, o desempregado perde rapidamente quase todo o interesse culinário. A tenrura original cede rapidamente passo a um intragável emaranhado de nervo e osso.
Rb – Sim e em que é que isso contribui para a felicidade da nacinha?
Bh – Ora, como é óbvio, quanto mais o tempo decorre nessa condição, de desemprego, pior. Mas, por isso mesmo, o potencial lucrativo do desempregado é imensamente maior que o de outros gados, quer bovinos, quer suínos, quer, até, avícolas. Porque dispensa, de todo, qualquer despesa com alimentação, crescimento, engorda e parque. Dispensa e desaconselha.
Rb – Não acredito que esteja a ter esta conversa…
Bh – Mas estás, portanto, o desempregado, por assim dizer, é uma carne instantânea: mal desponta, está logo pronta a ser processada e consumida. Esse, de resto, é o seu momento ideal de colheita e abate. Assim, convém criar mecanismos de recolha e transporte ágeis e bem organizados, entre os produtores e os matadouros municipais, de modo a que nenhuma da excelência e suculência potenciais se percam com demoras e burocracias inúteis.
Rb – Ahh estás a brincar seu malandro…
Bh – Nada disso, para aqueles que ainda sintam algum escândalo com isto, como tu, convém que se compenetrem nesta incontornável fundamentação técnica que a toda esta aparente (apenas aparente) carnificina sugere, repara: numa economia arcaica, a finalidade dos agentes é produzir bens ou serviços necessários ou desejados pelas populações; na economia moderna, de que o novo Portugal se constitui laboratório radioso e radiante, a finalidade da economia (investimento, produção e distribuição) é produzir desempregados.
Rb – Prossegue.
Bh - Ora, é admissível que uma economia tenha por destino a mera produção de lixo e desperdício?
Rb - Nem por sombras.
Bh - Os desempregados não podem, pois, ser o atestado do nosso absurdo, nem o absurdo pode ser a nossa instituição. Depois... bem, depois, é todo um admirável mundo novo de possibilidades e nichos de mercado. Até porque o desempregado não é apenas imensamente mais rentável que o bovino: é imensamente e mansamente também. Um bovino ainda oferece o risco duma cornada, o desempregado nem isso.
Rb – Uma ideia dessas só encontrará, talvez, paralelo nalguns passageiros de comboio por alturas do III Reich.
Bh – Não penses assim. Lembra-te de Euclesiastes da Bíblia. Tempo para TUDO. Mas quanto às possibilidades propriamente ditas, desde menu de atracção turística nos nossos restaurantes, hotéis e festivais gourmet, até enchidos, fumados, enlatados de exportação é toda uma panóplia de mais-valias e lucros fabulosos ao virar da esquina. E a panacéia que não será para o défice!... Um Xanax para as contas públicas!... E a maravilhosa bomba vitamínica e anti-inflamatória para aquele Instituto usurário da Segurança Social, que, justamente, deverá gerir a exploração da coisa, como só ele sabe e a sua vocação essencial e treino o exaustivo reclamam!... Ah, e nunca esquecendo, o sublime paraíso para as grandes cadeias de distribuição, para gáudio e orgasmo intelectual dos Pingos Doce todos da parolóquia.
Rb – Bem, ouve, Braveheart, idealizaste toda uma industria ao redor da coisa, mas assim de repente, e desconsiderando o mau gosto da tua ideia, por acaso até me ocorrem umas cenas pitorescas de varinas pelas ruas da da cidade, rebocando pela trela, pequenas filas de jovens recentemente postos na rua e apregoando: "Olha o desempregado fresco! Olha o desempregado fresco!...", até, confesso, quase que se me humedecem os olhos.
Bh – Estás a entrar na ideia Ricardo, até te digo, proibidos de pescar no mar, que alegria seria assistir ao ressuscitar dos nossos arrastões, lançando doravante as redes em terra !... E venham cá com quotas para o desempregado como vieram para a sardinha, que os nossos bravos governantes dizem-lhes das boas!
Rb – Pronto Braveheart, já acabaste não é, agora faz um favor, promete-me que não publicas esta conversa. Prometes?
Bh – Claro que sim.
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ps. conversa imaginária inspirada na ideia daquele dragão que já não existe